A Banca (2012, Aloísio Correa)

Luz! E correm os corpos, as cenas, a cidade pelas ruas que ficam pra trás. Câmera! E quase não se pode guardar o registro do acontecimento, fuga alucinada, sem respir… Ação! E assim começam as desventuras de A Banca, interessante experiência do cinema alagoano que sintetiza boa parte do posicionamento envolvido naquilo que tem se produzido nesta região. Um filme juvenil, de tendência ao maneirismo, devidamente à sombra do que o influencia: todo um universo pop, estampado nas camisetas de seus atores, nos gibis que preenchem a banca do título, na fluência de sua linguagem, tarantinesca até o talo, sem medo de ser feliz. Já na abertura, saudavelmente apressada, perseguimos os dois rapazes que protagonizam um assalto de HQs. Fanáticos por imaginários da ilusão, passam uma parte do filme dentro de um cinema, planejando o furto. Como se representassem de maneira quase profética todo um status quo dominante do que tem impulsionado pessoas a se envolverem com o audiovisual, em Alagoas.

E como coube ao meu olhar estrangeiro abrir o sumário de curtas deste dossiê, esclareço desde já que a minha aproximação com este cinema localizado também se deu como no desafio de uma corrida: um filme atrás do outro, pouco tempo para respiração entre sessões e tentativas de reflexão, bastante impressionado em como foi, para o bem ou para o mal, descobrir que existe alguma coisa tentando vir à luz, neste estado vizinho. Por tudo o que vi, o enredo deste primeiro curta caiu como luva, pois há um exato fôlego de invenção sendo dominado por aquilo que se pretende roubar dos cinemas já estabelecidos. O verbo é forte, mas não é novo. Pelo menos em seu sentido, que acompanha desde a conhecida angústia da influência literária, ao problemático conceito de repetição na produção em série das artes plásticas. Em tudo que envolve a criação artística, é natural este retorno ao primeiro olhar, ao que formou uma sensibilidade. Daí a consciência de Aloisio Correa, em seu curta, acarretar uma ação dupla: de autorizá-lo ao pastiche e o senso irônico, mas fragiliza-lo ao nível de simulacro em que de fato se torna.

Para um cinema que ainda está nas dores do parto, é mais do que adequada esta imagem filtrada pelo sangue da mãe. Tantos diretores, fotógrafos, músicos, tanta gente envolvida em trabalhos que espelham algo anterior, crise geracional, manifesto em ebulição, que faz tudo se transformar num grande caldeirão de referências, de créditos assumidos e ocultos, lembranças que assolam sem pedir licença. A Banca, na efervescência do cenário, se destaca pela sinceridade de experimentar a linguagem sem a preocupação da posteridade. É filme que ofega e estremece, que brinca com as formas e encontra nestes meninos (Felipe Mastroianni e Pedro Ivo) o perfeito retrato de uma geração. Não, é evidente que não se tratam de atores profissionais, assim como é óbvio, como pulsa em suas peles, um tesão por aquilo que fazem e desejam dentro de seus personagens. Isto é o que lhes imprime a diferença, o movimento sincero de estar no mundo.

Encerro a sessão com um clique sorridente do mouse, estimulado em participar de um tempo em que a câmera na mão ainda pode gerar crises. Pois é isto que desejo para o cinema alagoano, esta irresolução que encerra A Banca, numa vigorosa última cena em que a campainha toca e os meninos temem a ameaçadora presença do bandido que lhes emprestara o revólver para o assalto — um desfecho visitado pela Morte, ainda que sob registro cômico. Que seja um cinema provocado pela crise, pelas incertezas do tempo (já se esgotou o mês de prazo?, se perguntam os rapazes, nos perguntamos nós, que fazemos este site), um cinema assaltado por um medo que não tema ser adolescente, ou mais, que não tenha vergonha de assumir que ainda engatinha, mas que concentre em suas articulações uma vontade de correr. Que haja luz!

Fernando Mendonça

Agosto de 2013


ISSN 2238-5290