Farpa (2012, Henrique Oliveira)

O que define um curta-metragem não é apenas a sua duração. Brevidade é das coisas que menos importam para se compreender um filme deste formato como eficaz; pois o que vale, em linhas gerais, é a maneira como esta concentração do tempo será explorada. Existem princípios implícitos, especialmente no âmbito da ficção, que pedem uma aproximação distinta do espectador, uma forma genuína de seduzir pelo pormenor, de encontrar a atmosfera sem que os olhos pisquem muitas vezes. As ambições precisam estar sob controle, o desejo de guardar o mundo só colabora se a consciência do todo for direcionada para um movimento que seja, em si, completo — seja ele um drama, um corpo, um espaço. Quando assistimos ao filme Farpa, nos perguntamos ininterruptamente pelo lugar em que este movimento habita: nas mulheres que o tematizam, nas tragédias que se sobrepõem caoticamente, na inegável vontade de narrar toda uma jornada épica em menos de 30 minutos. Para quem não leu o original literário aí adaptado (o meu caso), também fica a pergunta sobre o início de tantos problemas, se nos contornos de suas letras ou naquilo que os roteiristas se esforçaram por manter delas (muito mais do que deveriam). Álbum de dores, Farpa provavelmente não conseguiria, pela maneira como foi concebido, lograr êxito nem mesmo na longa duração. Talvez numa minissérie, talvez numa telenovela, coubessem tantos episódios e atmosferas desconexas, tanta violência e imoralidade, na forma como estes males são refletidos. Pois é realmente impressionante a postura do filme em vitimizar uma feminilidade que ele próprio castiga. Nada explica ou justifica a opção da câmera em sensualizar suas atrizes antes que elas se tornem alvo de algum estupro — cenas como a do banho de uma garota de rua, contornada pela luz do lençol branco que a recobre, seriam interessantes de se analisar num destes debates levantados pela Marcha das Vadias. Discutir responsabilidade em arte é coisa perigosa, mas é difícil não atravessar esta preocupação diante de um material que busca a crítica, o tom de denúncia. Farpa anula sua condição de olhar por não completar em nenhuma das personagens o gesto espontâneo de seus sofrimentos; falha enquanto formato (curta) por ignorar o tempo requerido da permanência, vislumbrado de relance em sua última vítima, que extrapola os limites da interpretação posada enquanto nina o seu bebê morto numa calçada. Junto com a boneca enterrada que usa para esforçar uma metáfora, Farpa se sepulta como uma experiência que não cabe dentro de si. Por isso é melhor que minha reação a ele caiba apenas em um parágrafo.

Fernando Mendonça

Agosto de 2013


ISSN 2238-5290