Menina (2013, Amanda Duarte e Maysa Reis)

Quando fruto de uma disciplina acadêmica em que importem a compreensão e prática dos variados processos cinematográficos, um filme dificilmente partirá da premissa “uma ideia na cabeça, uma câmera na mão”. Pode parecer contraditório, pois a situação também lida com reduzidos ou inexistentes orçamentos, boa vontade e voluntariado dos envolvidos, além de uma primeira postura em que experimentar a linguagem audiovisual é a regra. Porém, uma regra que arrasta outras. O específico caso do curta Menina, resultado de um curso na Universidade Federal de Alagoas, dá bom exemplo de que uma ideia na cabeça, ao invés de pedir simplesmente a câmera, convoca a equipe. Trata-se de uma elaboração técnica do aprendizado obtido, de um exercício gramatical, em que importa acertar na iluminação, na continuidade, no ângulo da câmera e, principalmente, preencher todas as funções que ocuparão a listagem de créditos finais.

Felizmente, a equipe de Menina bate continência para uma ideia interessante (o que já demonstra um acerto na filtragem junto à seleção dos roteiros elaborados pela turma do curso), um texto que aposta na sutileza, nas poucas palavras e na singularidade destas junto aos personagens delineados. O ponto de vista narrativo, deslocando o ambiente high school — habitat natural de toda a equipe —, concentra-se na auxiliar de limpeza de um colégio, em sua solidão e na maneira como ela preenche o tempo com cartinhas dos alunos, encontradas no lixo. Os papeis amassados, colecionados numa caixinha pessoal, guardam afetos, palavras ditas ou escondidas. Aquele que a envolve na duração do filme, desperta um erotismo contido, pela troca de expressões utilizadas numa transa, que se concretizou ou não, entre um casal de estudantes. Daí ser um filme pautado pela sugestão, pelo que não pode ser visto do texto e pelo que exige de força dramática para posicionar a imaginação da protagonista a partir de seus gestos, sua reações ao que lê.

Enredo cumprido, percebemos que a equipe liderada por Amanda Duarte e Maysa Reis alcançou o desempenho esperado por seu professor. Acertaram em todos os pré-requisitos avaliativos. Mas, voltemos um pouco ao que move o cinema (ou seja, avancemos além do âmbito de um trabalho acadêmico): é mesmo possível falar em acertos ou formas corretas de se filmar? Será válido o julgamento de uma narrativa pelo que ela segue dos padrões? Eu prefiro esclarecer que, a partir daqui, distancio-me propositalmente do filme Menina (digno de elogios para aquilo que pretende), porque estas são questões que me surgem não apenas pela realização apoiada na UFAL, mas por outras, seja do contexto alagoano ou, mais detidamente, do que nasce pelo aprendizado em cursos e manuais ligados ao audiovisual. Recentemente fui impactado pelas palavras do cineasta Werner Herzog que, num encontro propiciado pelo Festival de Cinema 4 + 1 (Rio de Janeiro, Novembro de 2012 — com filmagem disponibilizada amplamente na web, via torrent), declarou quando indagado sobre a relação Cinema e Universidade, Teoria e Estudo:

“O estudo de cinema é uma doença; distancie-se o máximo possível e o mais rapidamente do exercício acadêmico e puramente intelectual de assistir aos filmes; a Academia é um inimigo, ela vai matar todos os instintos dentro de você, tenha muito cuidado.”

Palavras de alguém que viveu o cinema por quase toda a sua existência, para um público (do festival) amplamente formado por pesquisadores. Devidamente lembradas, também me fazem retornar ao impasse que enfrentei quando as ouvi: será possível aprender o cinema? Vivenciá-lo enquanto plano letivo, enquanto meio de avaliação que julga o certo ou errado de uma linguagem? Não quero aqui fazer nenhuma ode à inspiração romântica ou desprezar a importância de um adequado manuseio técnico. Ressalto que eu mesmo sou uma pessoa ligada à Universidade e muito devedor de suas reflexões. Compartilho tais inquietações porque sei do alcance que um dossiê como este, de um cinema localizado, quase que totalmente delimitado pelos padrões técnicos, pode mover junto aos que fazem ou dão seus primeiros passos na prática cinematográfica. Eu não tenho resposta alguma. Talvez por isso ainda não faça o cinema para além do pensamento. Mas sinto que são perguntas urgentes para um determinado nicho de produção que após aprender o ABC das filmagens, se contenta unicamente em fazer o certo. Torço para que Amanda, Maysa e sua equipe também tenham aprendido que acertar pode ser um problema, enformar-se, ater-se às fórmulas. Porque o instinto não se transmite. E isto é o que não pode morrer.

Fernando Mendonça

Agosto de 2013


ISSN 2238-5290