O Que Lembro, Tenho (2012, Rafhael Barbosa)

Sua carreira ainda é curta, mas pela maneira como a vem conduzindo, já se pode identificar em Raphael Barbosa um dos diretores mais conscientes da atual safra alagoana. O delicado contorno de seus filmes, pelos temas que abordam e as resoluções formais encontradas, sinalizam uma sensibilidade própria, ainda tímida, mas já dona de uma voz que é sua. O mais recente título que assinou, no momento trilhando uma expressiva carreira por festivais e premiações, justifica a alta aceitação do público pelo carinho com que se aproxima de sua protagonista e aquilo que dela exige: a simplicidade de sua presença, o corpo e as rugas de uma mulher (Anita das Neves) que atravessa o apagamento de suas lembranças, sem excesso na dor, mas com uma dignidade notável.

O Que Lembro, Tenho é um filme de procedimento muito simples, mas certeiro naquilo que propõe. A construção dos planos e sua retomada, no cotidiano de uma velha senhora que entra em crise com a própria memória, coloca o espectador em dúvida pelo que vê, inclusive, pelo que se lembra das cenas que vão cuidadosamente se encadeando. É assim que, já no desfecho do curta, os planos vazios sobre cenários que não foram antes vistos, na maneira como se intercalam junto a quadros filmados anteriormente, despertam um sentimento estranho ao olhar, de identificar um potencial de passado até mesmo no que não vivemos, ou no que não vimos da vida. Raphael Barbosa mais uma vez potencializa a metragem de seu exercício fílmico por explorar as limitações da curta duração, tornando evidente o que não cabe nela, construindo pela falta a justa materialização de uma ambiência singular, completa em si mesma.

Neste sentido, o diálogo com seu Km 58, filme de 2011, é muito significativo por esclarecer um avanço naquilo que move Raphael a se aprofundar em imagens-problema da memória humana. Se naquele filme já tínhamos um vigoroso arsenal de lembranças assolando um protagonista, culpado de um crime que não consegue esquecer, agora nos deparamos com uma situação oposta no que tange ao esquecimento, pois é doloroso constatar que são as lembranças que fogem de Dona Maria. Este contraste entre o lembrar ou não lembrar é muito bem resolvido pela maneira como os filmes são fotografados, pois enquanto o corpo que lembra é plenamente banhado de luz — é digna de destaque a nitidez do ator Igor de Araújo em Km 58, especialmente porque quase todo o filme é de fundos negros, de uma noite afundada na mais densa treva —, em O Que Lembro, Tenho, o corpo de Anita das Neves perde, gradativamente, o foco da luz, em meio ao décor circundante. Neste, são brancas as paredes, as cortinas, as janelas inundadas de sol, e tudo isto escurece um corpo que não pode mais se lembrar do passado.

Também não é possível falar deste filme sem refletir aquilo que nele representa a mulher Anita das Neves. Convocaram para interpretar Dona Maria, uma pessoa que nunca tivera relação com as artes dramáticas, que nunca posara ou atuara, e mais, que nunca visitara uma sala de cinema (a sessão de O Que Lembro, Tenho foi a sua primeira, em toda a vida). Em síntese, a mulher que interpreta o esquecimento trata-se justamente de alguém que é isenta de lembranças com a tela grande. É como se Raphael Barbosa trabalha-se na contramão de um exemplo recente que moveu o tema Cinema e Memória, através de Amour (Michael Haneke, 2012). Anita das Neves é o contraponto perfeito de Emanuelle Riva, pois enquanto a francesa constrói a sua personagem, também afligida pela incapacidade de lembrar, apoiando-se na diluição de uma memória cinematográfica que emana de sua própria pele, de tudo o que os filmes lhe sedimentaram em décadas de relação com a sétima arte, Anita das Neves vem representar a anulação completa deste peso, na virgindade de suas rugas perante a imagem, de um corpo que só se deixa tocar pela câmera para que a sua própria finitude seja possível. O Que Lembro, Tenho é, sob muitos aspectos, a consumação de um sacrifício, um rito de iniciação dos mais cruéis, pois já chega atrelado ao fim das coisas, do lugar efêmero (e do tempo, sempre o tempo) que um corpo encontra para se deslocar no mundo.

Obs: que a tudo isto seja somada a relação de Anita das Neves com os meninos do curta A Banca, pois estes filmes se complementam pelo que questionam do profissionalismo no cinema, da apropriação de corpos destreinados para o drama, e pelo nível distinto de simulacro que evocam. São estas as alternativas que melhor parecem caber no cinema de Alagoas, hoje.

Fernando Mendonça

Agosto de 2013


ISSN 2238-5290