Os Ratos Não Descansavam (2013, Michel Rios)

“A rua transforma-se na casa do flâneur,
que se sente em casa entre as fachadas dos prédios,
como o burguês entre as suas quatro paredes.”

Walter Benjamin

O procedimento é típico: um livro em mãos, o projeto de um filme e a percepção da impossibilidade. O vazio que a ideia de adaptação traz, o que ela castra. Daí a seleção de um recorte menor, verticalizado sobre uma atmosfera, poucas linhas de texto, um apelo aos sentidos. A responsabilidade do fotógrafo Michel Rios não era pequena. Discreta, talvez. Mas considerando a enormidade do livro em jogo (Angústia, de Graciliano Ramos), um desafio e tanto para sua primeira assinatura como diretor de um curta.

Os Ratos Não Descansavam, encomendado pela Revista Graciliano e assumido como uma espécie de ‘ensaio audiovisual’, é um filme que parte do romance alagoano e nele encontra não as convicções de um enredo, mas uma vontade de mundo, de se achar e perder pela cidade, pelo movimento das massas, das imagens que obliteram o cotidiano das ruas. O que importa agora é esta característica tão moderna de cartografar o desconhecido, de decifrar a voz interior pelo que se enxerga e sente do lugar em que vive.

Em conversa com Michel Rios, percebemos que a realização não era coisa aprisionada por planejamento prévio, mas uma observação capaz de considerar o Acaso, o desdobramento natural do espaço em imagens: esse filme caiu de supetão no meu colo, a ideia era fazer outra coisa…” Palavras que atestam a incerteza dos rumos, na contracorrente do que boa parte do cinema alagoano tem adotado como postura, em sua cega fidelidade ao storyboard. Michel, que já fotografou alguns filmes de maior destaque que o seu, se aproxima com timidez da direção, mas com uma liberdade que o coloca em vantagem, por não temer o imprevisto e não forçar à sua visualidade uma mecânica fria. O que poderia limitar o seu curta a ‘um filme de fotógrafo’ (os reflexos espelhados, as fusões ‘aquáticas’, as sombras em que o protagonista se afunda e praticamente converte) ganha outra dimensão justamente pelo uso direto de fotografias em sequência, em cenas de um movimento borrado e muito próximo ao seu ensaio Nada do Centro. Dimensão intensificada pelo surpreendente travelling sobre uma região empobrecida de Maceió, pelos trilhos que ficam na companhia desta memória, daquela mesma que Graciliano sentiu e legou, na confusão dos tempos, nos descaminhos de seu atormentado monólogo.

Em determinado momento do filme, vemos uma ave sobrevoando a cidade. E fora Benjamin quem também identificara o flâneur como alguém capaz de captar as coisas em pleno voo. Uma aproximação distante. Uma intimidade ausente. Os Ratos Não Descansavam herda do Cinema-Ensaio esta justa posição de descobrir as coisas à medida que as filma, de explicitar o conhecimento enquanto processo e, neste caso, a construção de uma identidade enquanto imagem. Michel Rios conclui sua breve homenagem literária libertando-se da literatura, abrindo caminhos que independem do texto para subsistir. Um olhar em formação que não tem pressa de descansar, como seus ratos.

Fernando Mendonça

Agosto de 2013


ISSN 2238-5290