Um Vestido Para Lia (2010, Regina Barbosa & Hermano Figueiredo)

Sob todos os aspectos possíveis, o curta infantil Um Vestido Para Lia é uma experiência sobre a superfície. Superfície das cores, dos desejos e ludicidade comuns a toda criança, das pequenas grandes formas que constroem o universo, superfície das letras que pulsam no original literário de Regina Barbosa, escritora que já desenvolveu toda uma série de livros a partir da menina Lia. Seu filme, ainda que não abandone este caráter superficial do farsesco, da recorrência ao folclórico até mesmo abraçado pelo enredo, sustenta uma delicada visão não apenas da infância, mas do que se pode enxergar por este filtro.

É assim que o ofício da mãe de Lia, em seu corte e costura, torna-se o centro do mundo, em closes extremos que interrompem a vida para que esta mesma prossiga, sobre a máquina em movimento, as agulhas e as linhas, as cores que ultrapassam o tecido para impregnar toda a decoração doméstica de seu cenário — há um excesso delas, mas não é mesmo assim para o olhar de uma criança, não são as cores muitas vezes mais importantes do que as formas?

Esta fascinação pela cor é um dos aspectos que podem relacionar o curta a outro também inspirado numa literatura sobre a infância: Clandestina Felicidade (Marcelo Gomes & Beto Normal, 1998). Ora, todos nos lembramos de que em seu conto, Clarice desenvolvia semelhante estudo sobre a obsessão de uma menina. Lá, o livro de Monteiro Lobato, aqui, o vestido para a festa de uma Padroeira. Episódios distanciados no cinema justamente pela presença/ausência da cor. Se o curta pernambucano optou pelo rigor inusitado de um P&B, foi também para enfatizar o lugar e o tempo da infância em sua abordagem, ponto de vista atravessado pela memória, seja da escritora, seja da personagem encarnada pela menina-atriz. No filme de Regina Barbosa, por se tratar de uma menina que não se lembra das coisas, mas que as vive no momento exato do acontecimento (e de alguma forma vive pela metade, pois se demora em ser completada pela satisfação do desejo), a cor surge como recurso didático de outro olhar sobre a introspecção.

Filme para ser tocado com outras expectativas, Um Vestido não pede mais do que um pouco de atenção, assim como sua protagonista. Assim como o cinema alagoano, enfim…

Fernando Mendonça

Agosto de 2013


ISSN 2238-5290