Sobre Alagoas, Cinema, Terra e Água

Casamento É Negócio? (1933, de Guilherme Rogato)

Quando Guilherme Rogato gravou na película o texto de abertura do primeiro filme alagoano a que se tem acesso (Casamento É Negócio?, de 1933), o que ele imprimiu foi uma contradição, lançada inevitavelmente ao futuro, entre a insegurança de variados aportes e o desejo de este cinema oscilante inserir-se, contra si mesmo e a partir dali, na cinematografia nacional. No pedido de desculpas pelos deslizes dos intérpretes amadores, que, “apesar de se sentirem pela primeira vez dentro de uma câmara, não desmereceram os seus papéis”, e onde alguns veem carma, talvez esteja o início mais emocionante e humano do cinema alagoano, a sua entrega à consciência do público e de si mesmo enquanto representação.

As primeiras imagens em movimento de Alagoas foram realizadas em 1921 por aquele italiano então radicado em Maceió, quando os estrangeiros eram, por excelência, os operadores e donos das máquinas de cinema no Brasil. Rogato filmou em película o carnaval, as pontes e o futebol, esbarrando depois em uma polêmica histórica ao disputar, involuntariamente, o título de realizador do primeiro longa de ficção alagoano com o pernambucano Edson Chagas e seu faroeste O Bravo do Nordeste (1931)filmado de passagem por Alagoas e levado debaixo do braço de seu realizador para desaparecer no tempo.

Após a morte de Rogato, em 1966, e de seus documentários institucionais anônimos para o grande público, de realização já difícil devido à precoce dependência de recursos governamentais, o cinema de Alagoas saltou para a fase moderna. Neste período já funcionava a empresa cinematográfica Caeté Filmes do Brasil, e, através dela, foi realizado o segundo e último longa alagoano, A Volta pela Estrada da Violência (1971). Este não conseguiu espaço no circuito nacional por valer-se da fotografia em preto-e-branco numa época em que a cor já desenhava o cinema, mas chegou a causar grande comoção em Santana do Ipanema e Maravilha, cidades onde foi rodado.

A disposição cinematográfica de A Volta… foi registrada pelo cineasta Pedro da Rocha no curta-metragem Memórias de uma Saga Caeté (2012), primeira peça a revirar a filmografia alagoana por metalinguagem. Durante a década de 30, Casamento É Negócio? permaneceu como um filme mudo perdido na cesta do cinema falado, sem obter, portanto, grande notoriedade, mas, ainda assim, foi o único sobrevivente do período em tela a ser catalogado no belo livro de Paulo Emílio Sales Gomes, Cinema: trajetória no subdesenvolvimento, publicado nos anos 70.

O cinema alagoano acompanha a história do cinema brasileiro como alguém que vê uma cena entrecortada pela janela, oscilando entre saídas para tomar fôlego e certo adormecimento nas pernas. O cinema chegou a Alagoas e ao Brasil quase ao mesmo tempo (!). Tal afirmação é necessária para compreender a largada da prospecção de um cinema que se descompassou posteriormente inúmeras vezes, (re)emergindo de quase sumiços em momentos bastante específicos, em geral atrelados às reviravoltas ou ressacas dos modos de produção nacional. Serve também para já introduzir uma resposta inicial e igualmente importante, ainda recebida com surpresa em muitas rodas cinematográficas – sim, o cinema alagoano existe e está vivo.

Mas se o próprio cinema brasileiro se aventurou sem garantias em fases e ciclos de diferentes densidades – como qualquer cinema subdesenvolvido, refém inevitável das mudanças de conjuntura política e social –, o alagoano oscilou entre períodos cintilantes atípicos para suas secas, e, ainda hoje, tenta encontrar-se em uma história de hiatos, obras desaparecidas e persistência, esta marcadamente isolada. Enfrenta agora, talvez, uma nova contradição mais geral: a busca por territorialidade quando os cinemas do mundo virtualizam fronteiras.

É possível que aqui resida uma das dificuldades de análise dessa produção. Os próprios cineastas ainda tateiam terra mais firme e contínua, um quinhão da linguagem ou a possibilidade de transpor as suas próprias realizações no tempo. A falta de memória física desses filmes, de um passado que tenha sido preservado para olhos futuros, aprofunda ainda mais a imagem de terra sempre nova ou de uma planta em tenra idade. Uma tomada aérea do cinema alagoano pouco o revelaria, pois só na microscopia é que se define uma afetuosidade por esse cinema.

Sobre a sua reincidência sempre pairou a incerteza. No embalo dessa loucura se firmou, e vigorou desacompanhado até outro dia, certo receio protetor em debater a produção alagoana para além de sua sobrevivência esforçada, envolvida por uma constante atmosfera de dúvida, recomeço ou porvir, notadamente acentuada pelo desconhecimento ou até mesmo pela falta de sensação de pertencimento, tanto por parte de alguns cineastas e gestores, quanto por parte do público, em relação à linha falha e sinuosa que carregou o cinema alagoano até aqui. Ou, mais gravemente, um desconhecimento/estranhamento da cara ou do propósito desse cinema, uma construção que ultrapassa os próprios filmes ao instalar-se como processo sociocultural. Desde o início do século XX, a dificuldade de se firmar um debate dessa ordem foi claramente prejudicial à evolução vigorosa da cinematografia de Alagoas como expressão artística capaz de transgredir tanto a mimese quanto a louvação acrítica da mídia por mais um filme brotado da escassez.

Chão de Casa (1982, de Celso Brandão)

Alagoas passou por espasmos cinematográficos, diga-se, que seguiram pulsando e reverberando desordenadamente após a sua ocorrência. O mais significativo desses espasmos, e aquele que talvez se assemelhe, em alguns aspectos, ao momento presente do cinema digital, ocorreu nas décadas de 70 e 80, com o olho do homem comum na câmera de super-8. Daí emergiu o maior volume de filmes desde Rogato, e também aquele que foi o seu realizador mais expressivo e de filmografia mais sólida até então, Celso Brandão. Curta-metragista por escolha e precisão, Celso é o único cineasta da época que ainda está a produzir, atravessando todas as bitolas seguintes desde o frisson do Festival do Cinema Brasileiro de Penedo (1975-1982), no qual fora premiado em sete das oito edições. Sua obra é formada por mais de 40 filmes, compondo um estudo da cultura popular alagoana de personalidade cinematográfica inquestionável.

São raros os registros e difícil a exatidão dos relatos desses períodos. É possível elencar as contribuições para o contorno ou tentativa de uma historiografia, sendo as principais dadas pelo pesquisador e crítico Elinaldo Barros, uma espécie de lince desse passado. Sem os seus livros Panorama do Cinema Alagoano (1983 e 2010), Cine Lux, Recordações de um Cinema de Bairro (1989) e Rogato – A Aventura do Sonho das Imagens em Alagoas (1994), seria impossível traçar qualquer paralelo analítico. Há muitos casos, inclusive, em que as sinopses e críticas de Elinaldo são os únicos vestígios físicos da existência de determinadas obras cinematográficas. Também pelas mãos dele foi possível acessar as imagens de Casamento É Negócio?, por meio de uma digitalização amadora do seu negativo em 35mm projetado na parede.

E, justamente por serem escassos ao longo das décadas, merecem espaço, no corpo deste texto que naturalmente deixará lacunas, algumas fontes divulgadas fora das prateleiras pessoais ou presentes na internet, que, assim como os filmes que sobraram até a febre do super-8, provam que o cinema alagoano pulsa em processo e para além dos releases de jornais: Subsídios à História da Cinematografia em Alagoas (1974), de José Maria Tenório Rocha; Produção Audiovisual Alagoana: catálogo e análise (2008), uma contribuição dedicada da jornalista Larissa Lisboa; Revista Graciliano nº 16 – O cinema alagoano pede passagem (2012), que vem a ser o primeiro panorama traçado pela imprensa; matérias e críticas de jornais espaçadas e de épocas distintas, muitas encontradas em hemerotecas, sendo as mais atuais as do jornalista e cineasta Rafhael Barbosa; textos avulsos do cineasta Hermano Figueiredo; relatos de circuitos e sessões cineclubistas, assim como o relatório do Núcleo de Produção Digital de Alagoas (2008-2009/Rede Olhar Brasil), que documenta o programa mais intenso e veloz de capacitação para cinema que Alagoas já teve. Este último foi, sem dúvida, o propulsor do interesse realizador e da aproximação de grande parte da nova geração do cinema alagoano surgida na segunda metade dos anos 2000, já assinalada anteriormente por oficinas de audiovisual realizadas pela seccional do Sesc em Maceió.

Tal desinteresse por esse passado ou dificuldade em acessá-lo (até o próprio Museu da Imagem e do Som de Alagoas, fundado em 1981, pouco contribuiu enquanto seu guardião e disseminador), como bem se sabe, não é, nem de longe, uma particularidade do cinema alagoano; nem o regresso necessário que então sugiro pode ser visto infantilmente como um vício saudosista. No momento atual, em que alguns talvez enxerguem um movimento de retomada de um cinema adormecido, quando uma nova geração de realizadores digitais renova seus quadros e faz crescer, a cada ano, a cinematografia do estado, vislumbro o seguinte ângulo: em 2013, precisamente, encerra-se a década de um fôlego diferente, um fôlego realizador cujo sopro principal se deu com o filme Imagem Peninsular de Lêdo Ivo (2003), de Werner Salles Bagetti, primeiro vencedor em Alagoas do docTV.

Daquele marco – para o cinema, o marco do filme –, o que se seguiu em termos de pressões por políticas públicas, vontade de realizar e aglutinações coletivas, iniciativas de formação técnica e de público através de cineclubes e do cinema de bairro do SESI, além de tentativas de estabelecimento da crítica e de instituições e entidades esforçadas nesse levante, como ONG´s, produtoras e a Associação Brasileira de Documentaristas e Curta-metragistas – Seção Alagoas (ABD&C-AL), desdobrou-se, por germinação da semente plantada ou por inconsciente coletivo sugestionado, absolutamente tudo que se pode assistir da última década do cinema alagoano.

Alagoas é um dos poucos estados do Nordeste do Brasil onde não há uma lei ou fundo de incentivo à cultura e onde, até 2011, não havia sido publicado qualquer edital de fomento à produção audiovisual, tanto na esfera municipal quanto na estadual. Tal quadro de descaso dos gestores públicos ao longo das décadas sempre forçou não só o cinema, mas todos os outros setores artísticos, a uma subsistência raquítica e claudicante. Do cinema, no entanto, veio o esforço mais efetivo para a abertura de um mecanismo público e contínuo de produção: em 2010, a Secretaria de Cultura do Estado lançou o I Prêmio de Fomento à Produção Audiovisual de Alagoas, que previa o valor de 75 mil reais em premiação para cinco projetos de curta-metragem orçados em até 15 mil reais cada. Em 2011, a segunda edição do edital premiou cinco novos curtas, desta vez com 20 mil reais cada um.

A partir dos dois concursos mencionados, foram produzidos os seguintes títulos: Km 58 (2011), de Rafhael Barbosa; O Matuto Zé Cará (2011), de Tato Sales; Aquarela (2011), de Lúcia Rocha; Do Amor e Outros Crimes (2011), de Anderson Barbosa e Pablo Casado; Guerreiros de Jorge (2011), de Marco Aurélio Costa; Farpa (2012), de Henrique Oliveira; O que lembro, tenho (2012), de Rafhael Barbosa; Exu – Além do bem e do mal (2012), de Werner Salles Bagetti; Memórias de uma Saga Caeté (2012), de Pedro da Rocha; Sobre Relógios, Sonhos e Liberdade (2012), de Ailton da Costa.

O financiamento ínfimo (mas decisivo) dos dois editais selou uma ponte alargada nessa cinematografia, uma ponte há muito esperada entre veteranos pós-Festival de Penedo (do final dos anos 80 em diante), definida por realizadores com mais de um filme como Celso Brandão, Pedro da Rocha, Werner Salles Bagetti, Hermano Figueiredo, Regina Célia Barbosa, Almir Guilhermino, Glauber Xavier, Thalles Gomes, Beto Leão, Joaquim Alves, José Márcio Passos, entre outros, e uma geração mais jovem e em geral estreante, que produz cinema entre amigos e se utiliza de equipes repetidas em alguns filmes.

O fator mais interessante da mescla dessas gerações está, certamente, na unificação de uma massa que parece delinear, pela primeira vez, certa capacidade de superar fases e nomes individuais de diretores e chegar ao desenho de uma tradição tardia, mas necessária, do cinema alagoano como construção social. Para além das suas realizações, tal abertura produtiva surpreendeu pela quantidade de energia criativa represada e à espera de subsídio que se evidenciou e eclodiu, não só no já conhecido esforço de realizar algo com parcos recursos, mas também no público jovem, ansioso para ter um cinema para chamar de seu.

A maior parte dessa adrenalina, contudo, ainda não encontrou um canal financeiro para concretizar-se, pois o baixo orçamento do Prêmio já provou estar aquém não só da realização de um cinema mais profissional e capaz de oxigenar economicamente um setor, mas da demanda denunciada pelo espantoso número de inscrições nos editais.

Ainda assim, a junção da massa que constituiu um corpo mais colaborativo e heterogêneo para o cinema alagoano foi o ânimo que faltava para explodir uma bomba histórica armada há pelo menos uma década. Com o nome de QUEBRE O BALCÃO – por uma política cultural democrática para Alagoas, um grupo de cineastas se uniu em 2013 em um movimento pelo fim de favorecimentos na gestão dos recursos públicos da Cultura. O grupo realizou um ato silencioso no set de filmagem do longa-metragem nacional Olhar de Nise, de Jorge Oliveira, após descobrir, pelo portal da transparência do governo, que o filme em questão havia recebido 150 mil reais através de patrocínio direto da Secretaria de Cultura do Estado, quando a mesma alegava não possuir verba para lançar a 3ª edição do edital de fomento à produção audiovisual. Uma das últimas ações do grupo foi um pedido de investigação das contas da Secretaria de Cultura do Estado pelo Ministério Público de Alagoas.

Em pouco tempo, o Quebre o Balcão recebeu o apoio da sociedade civil e tomou redes sociais, matérias de jornais e televisão. Ganhou repercussão nacional com um ato realizado no festival CinePE, em Pernambuco, quando da participação do filme alagoano 12:40 (2012), de Dário Júnior. Em 2010, a falta de políticas públicas para a Cultura já havia provocado a disseminação do manifesto Alagoas: Terra sem Lei através dos cineclubes Ideário e Tela Tudo e do apoio de instituições locais e nacionais ligadas à produção cultural.

Se, por um lado, a pressão dessa organização coletiva ainda não rendeu a continuidade do edital estadual até então, por outro, provocou, por parte do município, o lançamento do primeiro concurso público para produção de filmes de curta-metragem da história de Maceió, o Prêmio Guilherme Rogato. Iniciativa com filmes ainda em curso, o prêmio novamente atestou a grande demanda em produzir cinema devido às 36 inscrições só da capital, bem como a necessidade de inclusão de abordagens mais contemporâneas entre os critérios de seleção.

Exú – Além do Bem e do Mal (2012, Werner Salles Bagetti)

A falta de tradição desse cinema, um cinema que, insisto, conta com apenas um filme sobrevivente em seu nascedouro, Casamento É Negócio?, demonstra, surpreendentemente, produzir muito mais impacto na estética dos filmes produzidos hoje em Alagoas do que a princípio possa parecer. O traço do drama pitoresco e de costumes populares, assim como a decepção amorosa ou a condução novelesca da narrativa e o final chavão, presentes inocentemente naquele primeiro filme, até hoje regem a maior parte do que é produzido em termos de ficção.

Tais características, se não têm propriamente direcionado debates acerca da linguagem nem construído abordagens mais profundas, levam o mérito, ao menos, de produzir certa aproximação do público médio ao cinema através da atenção da mídia local e de alguns festivais nacionais, a reboque da simpatia de personagens ou enredos de apelo emocional. Essas narrativas de entretenimento têm formado, por consequência, a primeira geração de personagens e caras alagoanas com que o público se identifica no cinema. Já sucedem casos, inclusive, de repetição de personagens e aparições de atores que fizeram carreira no teatro em outras produções, ou até de atores amadores com mais de um filme no currículo, fato surpreendente em um cinema que não possui escolas de atuação. Aqui, duas atrizes amadoras sobreviveram ao close de uma câmera de maneira muito especial: Fabrícia Avelino, com a menina Lia e a jovem Luzia; e Anita das Neves, com a idosa Maria, atuação que comoveu de forma mais unânime o público até então.

Nesta linha, encaixam-se, em maior ou menor grau, filmes como A Risonha Morte de Tião das Vacas (2006), Desalmada e Atrevida (2009) e Sol Encarnado (2012), de Pedro da Rocha; Do Amor e outros Crimes e Fênix, de Anderson Barbosa e Pablo Casado; Farpa, de Henrique Oliveira; Um Vestido para Lia (2010), de Hermano Figueiredo e Regina Célia Barbosa; A Banca (2012), de Aloísio de Barros Correia; Hoje Não (2013), de Wagner Sampaio; e, ainda que mais sutilmente, o premiado O Que Lembro, Tenho, de Rafhael Barbosa.

A sustentação e a fertilidade proporcionada, em muitos aspectos, pela evolução do movimento cineclubista como parte pouco reconhecida deste cinema, foi essencial para certo desvio deste cenário. Desaparecidos desde as décadas de 60, os cineclubes alagoanos voltaram a surgir também a partir de 2003, através da pílula vermelha distribuída por intervenções e oficinas promovidas por mais um cineasta viajante radicado em Maceió, Hermano Figueiredo.

Inspirado pela falta de tela e de olhos para o cinema brasileiro e pela atitude do cinema em qualquer lugar, o primeiro a eclodir desse mangue criativo foi o Cineclube Ideário, que logo provocou a formação do Antes Arte do que Tarde (extinto em 2008) na Universidade Federal de Alagoas. Outros se constituíram depois, principalmente entre 2008 e 2010, tanto na capital como no interior, sendo a maioria resultado de oficinas realizadas por ou em parceria com o Ideário e, mais tarde, também ministradas pelo Tela Tudo Clube de Cinema.

Estes dois últimos agrupamentos militantes até hoje representam um porto para a atividade cineclubista alagoana, que hoje reúne cerca de 40 cineclubes oficialmente mapeados (um viva, então, à clandestinidade) e espalhados por todas as regiões geográficas do estado, sendo a metade formada ou subsidiada, neste mesmo período, por equipamentos do programa nacional Cine Mais Cultura (MinC) e acervos da central de acesso ao cinema brasileiro, a Programadora Brasil. Nesse processo, destaca-se a dedicação da cineclubista Nataska Conrado em acompanhar como monitora os primeiros passos dessa rede e hoje, ser uma das maiores multiplicadoras da formação do olhar para cinema com sua oficina de brinquedos ópticos para educadores de escolas públicas.

A capilaridade desse circuito contínuo ainda é pouco aproveitada por grande parte dos cineastas de Alagoas e do Brasil, onde os cineclubes representam, é fato, a única vertente exibidora capaz de alcançar um público mais heterogêneo, distante, e, muitas vezes, fiel. São essas as telas legítimas do curta-metragem independente, reconhecidas e regulamentadas pela Agência Nacional do Cinema (Ancine) desde 2007. Ainda assim, a falta de reconhecimento ou o desleixo em relação a esses espaços de debate por parte dos realizadores, dos gestores públicos e até mesmo dos próprios espectadores, acaba por reduzir a carreira do filme às exibições em festivais de cinema, para olhos de familiares ou de colegas de trabalho, ou ainda, em raros casos, a canais fechados de televisão, em uma atitude avessa à verdadeira completude de uma obra cinematográfica – o encontro com o público mais amplo.

A justificativa aqui não é mais a da ausência das salas convencionais de exibição fora dos shopping centers, pois, ainda que estas existissem à revelia de igrejas, sapatarias e lojas de departamento abertas em suas antigas edificações por todo Brasil, as mesmas não dariam conta de abarcar a quantidade de filmes independentes que se pronuncia de forma incessante no cenário. Já é senso comum e motivo de grande desânimo a ausência de janelas para os cinemas nacionais nas salas comerciais de exibição de todo o mundo e nas televisões abertas, renegando tais produções à marginalidade eterna dentro de uma engrenagem econômica que engole não somente o cinema, mas tudo que também se move.

Mas, por outro lado, a submissão a ineditismos absurdos exigidos por alguns festivais na era da disseminação da informação ou até mesmo a não divulgação da maior parte desses filmes na internet, em geral realizados com recursos públicos ou a custo do próprio bolso, acaba por depor contra a própria razão de existência de tais obras. Qual é o intuito, afinal, do cineasta, ao abrir uma janela para o mundo? Estes filmes são ou não são feitos para serem vistos?

Determinadas ações sazonais de exibição de filmes alagoanos foram decisivas para a legitimação desse cinema pelo público, o que prova o interesse crescente da população em acessar as suas produções. Aqui, reúnem-se lançamentos e exibições de filmes locais no Sesc Alagoas e, principalmente, no Cine SESI Pajuçara – o espaço convencional do cinema alagoano ao longo dos últimos anos e que foi recentemente fechado por sua instituição gestora no auge da programação, para desespero do público –; mostras e debates promovidos por alguns cineclubes, principalmente da capital, como o Projeção Cineclube; a Mostra Sururu de Cinema Alagoano, promovida pela ABD&C-AL, com premiação para os filmes do ano e que conta com público crescente desde 2010 – mesmo após quase 30 anos da última mostra competitiva de cinema no estado – ; a Semana do Audiovisual (SEDA) realizada em Arapiraca pelo coletivo Popfuzz, que, em sua 2ª edição em 2013, promoveu, provavelmente, o primeiro momento de debate mais interessante desta produção com a crítica – com a participação de integrantes das revistas Filmologia e Cinética – e o lançamento de filmes, como os recentes Matador (2013), de Wladymir Lima, e Flamor (2013), de Leandro Alves; o ressurgimento da cidade de Penedo como um pólo disseminador desse cinema, por meio do Festival de Cinema Universitário, realizado pela Universidade Federal de Alagoas desde 2011; a Margin-AL – Mostra Alagoana de Cinema de Garagem, iniciada em 2013 e que ampliou as abordagens da produção alagoana, com homenagens para o cineasta polêmico e trash-pornográfico Lobão, de onde saltaram, também, filmes estranhos como Succubus (2013), de Andrey Melo, e Panorama da Carne (2013), de Erivaldo Mattüs.

Mas foi com o projeto de cinema itinerante Acenda uma Vela, realizado pelo cineclube e ONG Ideário, que o cinema alagoano conseguiu atrair o maior número de olhos de sua história: em 2013, na sessão em Maceió, mais de mil pessoas saíram de suas casas ou pararam na rua para ver uma mostra só de filmes alagoanos. Há seis anos, esta ação cineclubista é um dos principais veículos para a circulação do cinema local em regiões com pouco ou nenhum acesso ao cinema, e, através de projeções de filmes em velas de jangadas típicas de cada região de Alagoas, percorre comunidades litorâneas, lagunares e ribeirinhas nos primeiros meses do ano.

Mwany (2013, de Nivaldo Vasconcelos)

Como na história de todas as cinematografias, o ânimo de debate dos cineclubes alagoanos foi decisivo na discussão linguística (e ainda inicial) proposta por algumas realizações de cinema mais recentes. Por nutrição dessa fonte, projetaram-se tentativas indefinidas do cineasta Rafhael Barbosa, (ex-integrante do Antes Arte), em Km 58 e O que lembro tenho, seu melhor roteiro; tiros mais abstratos e musicais de Alice Jardim, do Cineclube Ideário e Tela Tudo Clube de Cinema, com Barro do Muquém (2011), Todavia (2012), Zoé (2013) e Criatura (2013); e a cinefilia de Nivaldo Vasconcelos, do Ideário e Tela Tudo, com os mesmos Zoé e Criatura, e, mais recentemente, com Mwany (2013), provavelmente o filme mais consistente dessa nova geração. Com claras referências a A cor da Romã (1968), do diretor soviético Sergei Paradjnov, Mwany se insere no hibridismo contemporâneo da ficção/documentário – a versão cinematográfica do dilema do ovo e da galinha –, e apresenta uma tessitura harmônica consciente da linguagem e da blindagem de suas personagens.

Km 58, de Rafhael Barbosa, levanta, aqui, uma memória peculiar. Foi a primeira ficção realizada pelo diretor e também pela atual geração do cinema alagoano, o que provocou certa surpresa no público ao ver, em um filme feito por jovens de Alagoas, o apuro técnico do selo mainstream do que seria um “bom” cinema independente em outros lugares – a estética cinematográfica acessível das câmeras DSLR com um som reverberante mixado para a sala convencional de cinema.

Não faz muito tempo que o som deixou de ser um problema para o cinema alagoano. Com exceção de produções documentais mixadas e rodadas com técnicos de som de outros lugares do Brasil, a sonorização destes filmes sempre foi uma barreira a saltos mais ousados e à sua palatabilidade diante do público e das salas de projeção. Quando os filmes não eram realizados com o som captado pela própria câmera, em geral, também não eram mixados nem encaravam o som como um elemento criativo tão importante quanto a imagem. A verdade é que não havia técnicos exclusivos de som para compor as equipes. As investidas contrárias a esse gargalo partiram, principalmente, do cinema de ficção, a maior parte após 2012, com a instalação do primeiro estúdio com mixagem 5.1 e criação de foley para cinema do estado.

Do documentário germina, no entanto, a veia mais criativa e inspiradora do cinema alagoano até então. Se este cinema ainda é um terreno sem tradição vistosa ou clara ruptura em relação aos estilos de abordagem do seu início, da veia documental principia uma ramagem de esperança quanto à consistência dessas obras como arte, para além do entretenimento. Essa linha foi a responsável por manter a câmera ligada nos períodos de maior estiagem, sempre balizada pela inquietude de Celso Brandão, a que mais tarde se somaram diretores mais frequentes como Pedro da Rocha, Werner Salles Bagetti, Hermano Figueiredo e, mais recentemente, Alice Jardim e Nivaldo Vasconcelos.

A realidade é que a maioria dos documentários alagoanos dialoga muito mais com a estética da telerreportagem e do filme institucional do que com a liberdade do cinema. A incursão mais radical e cinematograficamente aficionada é, sem dúvida, Interiores ou 400 anos de solidão (2012), de Bagetti, ao lado de Mwany (2013). A estes filmes e a detalhes mais concisos de outros, como a montagem e a proposta cenográfica de Calabar (2007), de Hermano, e a fotografia do ensaio poético de Os Ratos Não Descansavam (2013), de Michel Rios, deve-se, em diferentes níveis, a sensação de fluidez autoral e eficiência poética tão cara ao cinema alagoano de ficção. Nessa liberdade poética, incluo, ainda, as animações delicadas Uma Linha (2008), Haikai (2009) e ?! (2008), de Weber Salles Bagetti.

Do aclive documental também se pronunciaram as ações mais inclusivas de ampliação de público, das possibilidades de discurso e do nicho de realizadores, para além da classe média, através de programas para produção de filmes com jovens de cidades interioranas e zonas periféricas de Maceió. As mais significativas dessas Experiências Populares em Audiovisual (EPA´s), como são categorizadas, foram o Ponto de Cultura Ideário e o trabalho com jovens da Grota do Arroz; o projeto Olhar Circular, da Associação Artística Saudáveis Subversivos, com filmes realizados por garotos do município de Marechal Deodoro; e, principalmente, o Ateliê Sesc de Cinema, que já em sua 4ª edição tem destacado primeiros filmes de adolescentes de Maceió, alguns deles com passagens em festivais e mostras que abarcam as ditas “visões periféricas”, com os filmes O Velho e a Lagoa (2009), Nome, Idade, Profissão e Onde Mora (2009) e Marinete (2011).

Saltos e Passos (2012, direção coletiva)

Outros, como Brêda (2013) e Centro – organismo vivo (2013), têm se afastado da linguagem televisiva ao se aproximar de uma descoberta cinematográfica através da montagem mais inventiva e do entendimento simbólico do som. Saltos e passos (2012) é um dos que mais trabalha a sutileza do discurso, quando imagens de passos de hip hop e saltos de Le Parkour são contrapostos ao som dos pensamentos cotidianos de seus dançarinos.

Tais filmes têm revelado universos pouco vistos – quem saberia, sem Cepa Sideral (2012), que no campus do Centro Educacional de Pesquisas Aplicadas (CEPA) há um observatório astronômico? – e, mais do que se diz, são olhares que se referem bastante às duas obras documentais que mais se aproximaram do povo alagoano nas ruas, Mirante Mercado (2004) e A Última Feira (2005), ambas de Hermano.

Certa experimentação documental tem ampliado a abrangência do cinema alagoano em direção a propostas contemporâneas de interações poéticas com outras linguagens dentro do campo da arte-mídia, como a videoinstalação. Relacionada ao conceito de cinema expandido, cunhado nos anos 70 e tão presente hoje no mundo, essa estética tem sido motor de trabalhos realizados pelo Tela Tudo Clube de Cinema, com projeções audiovisuais que ganham vida fora do espaço convencional da sala de cinema, e também de exposições processuais de artistas integrantes desse coletivo, como Alice Jardim, com Desdobras (2012), e Marianna Bernardes, com Moradores (2013) e um cinema para paisagens.

Essa linha de trabalhos conecta-se diretamente com o intento político-performático já levantado por ações como o Acenda uma Vela, quando o cinema invade o espaço público para subverter os modos de produção e acesso à arte e à tecnologia. Também em 2013, a produtora e agência Núcleo Zero, de Bagetti, realizou a primeira projeção audiovisual mapeada de Alagoas, em Maceió, nos arcos do Armazém Usina.

O fato de o cinema alagoano não haver produzido um histórico de grande repercussão ou ainda não ter visto florescer obras-primas capazes de calibrar com rigorosa precisão a relação entre forma, conteúdo e universalidade, não faz com que esse cinema não tenha sido revolucionário no contexto sociocultural em que se insere. Mesmo sem um curso oficial na Universidade Federal de Alagoas, o engajamento de professores como Almir Guilhermino e Sérgio Onofre, respectivamente, tem possibilitado que estudantes universitários experimentem o cinema em filmes como Menina (2013), de Amanda Duarte e Maysa Santos, e, igualmente, a revitalização de cinemas públicos como o Cine Penedo, instalado no centro histórico penedense e restaurado em parceria com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).

Choveu, e Daí? (2002, de Hermano Figueiredo)

A cada filme realizado em Alagoas percebe-se ainda o aumento de parcerias entre equipes e entre diretores, produtores, roteiristas, atores, um único preparador de elenco até então (Nilton Resende), diretores de arte, fotógrafos, montadores, iluminadores e assistentes, os profissionais que formam a cadeia de construtores desse cinema, uma cadeia que tem no set de filmagem e nas ilhas de edição a sua escola. Há pouco tempo, inclusive, era difícil imaginar exemplares do cinema alagoano sendo selecionados para mostras nacionais e internacionais. O público do cinema independente em Maceió, por sua vez, foi sensivelmente transformado, e isso em menos de uma década, por ações cineclubistas e por uma única sala de cinema de bairro com 160 lugares, o Cine SESI. Em um estado pequeno como Alagoas, possuir três cidades como foco de desenvolvimento do audiovisual – Maceió, Penedo e Arapiraca – também pode ser considerado um feito estrondoso.

Da microscopia do cinema alagoano, destaco uma cena: com as mãos para o alto, empunhando pêndulos retorcidos, crianças usam a técnica da radioestesia para captar movimentos debaixo da terra em Choveu, e daí? (2002). Não se entende direito o que elas querem, nem para onde vão, como se hipnotizadas. Caminham conduzidas pela intuição. Mas, de suas bocas, suavemente, escapa uma palavra como mantra – água. Debaixo daquela terra aparentemente árida, água é o que não falta.

Lis Paim

Agosto de 2013


ISSN 2238-5290