Barro do Muquém (2011, Alice Jardim)

Sobre a arqueologia do barro e do mito

Em Barro do Muquém nos confrontamos com a experiência da tragédia que legitima o barro enquanto possibilidade artística: a chuva que inundou a comunidade do Muquém lança uma outra chave de leitura. É essa chuva, também agora, entidade (cuja aparição funde-se entre o arbitrário e o natural) da reconstrução da arte e da arquitetura desse povo. O sofrimento é a experiência repetida dos moradores da região, que se unificam à luz da necessidade da sobrevivência. Um sabe o estilo artesanal do outro, e respeita, não tenta invadir, mantém essa distância, aqui, essencial ao convívio.

No casal “protagonista” do documentário de Alice Jardim, presenciamos a construção do mito do objeto (artístico ou artesanal): a sua representação material objetiva (isso é: as peças de barro prontas), a diretora jamais nos esconde a história acoplada naqueles gestos (e é por isso que esse momento se torna também um mitolocal ou universal): a mulher e o homem, ambos idosos, partilham um amor próprio, não somente pela profissão em si, mas como sensivelmente pelos sorrisos que vagueiam, pelas “duras” que ela incube a ele (e as respostas bem humoradas dele, muitas vezes preenchidas pelo silêncio apenas compreensível pelo imenso tempo juntos), pela a arqueologia das lúnulas – de ambos – maculadas da matéria-prima daquilo (e somente daquilo) que fazem para sobreviver (e é esse mito do amor supremo: a dedicação singular e exclusiva a uma única coisa).

A arqueologia dessas lúnulas, dessas mãos em que Alice parece se dedicar com tanta paixão pela coisa filmada (Barro do Muquém é, a meu ver, um filme-irmão de outro filme da diretora: Do Barro à Louça), me parece, também, uma espécie alegórica da própria condição do novíssimo cinema de Alagoas: uma urgência da necessidade de algo a ser desenvolvido – uma linguagem, uma diegese, um olhar ao autóctone, por isso que, sobretudo, o que Alice filma é a essência das mãos, daquilo por onde sentimos o totalizante do somático.

E os depoimentos de que a nova geração não se interessa pela criação artesanal das esculturas de barro, expõe o perigo da transformação do mito em mitologia (essa a explicação, a memória do mito, que só pode acontecer quando o objeto mitológico “desaparecer”, que é o que tende a ocorrer se a nova geração não se apossar da criação de novas esculturas). Mito sobre a mitologia? Jamais. Ambos co-existem, claro, mas num mito local como é o barro do Muquém, a sua mitologia correrá o risco de desaparecer justamente em face do maior mito de todos: o tempo.

Ricardo Lessa Filho

Agosto de 2013


ISSN 2238-5290