Criatura / Zoé (2013, Alice Jardim, Carolina Brandão & Nivaldo Vasconcelos)

Corpos a respirar o movimento

Mais do que as intrínsecas ligações que unem os corpos fílmicos de Criatura e Zoé (ambos realizados pela mesma tríade de realizadores, num mesmo período e abordando um “mesmo tema”), o que emana dos cosmos de ambos os filmes é uma certa ressignificação sintetizante do primeiro plano (de cada um), que, ao exibirem-se em conjunto, provocam a fusão pela busca de um cinema do corpo.

O primeiro plano de Criatura é um ventre protegido pelas mãos. Um ventre, um nascimento possível, um corpo que precisa ser acionado, respirado – e que se faz respirar no momento em que é posto em movimento, e cuja representação muscular desses gestos homologa a sua condição de ser vivo. Criatura compõe, de algum modo, a genealogia de certo cinema somático, dum cinema de presença em que o espaço do gesto remete às ilusões musculares de Meditation on Violence, de Maya Deren (a grande influência do filme, confirmada por um de seus realizadores, Nivaldo Vasconcelos). Ebulição dos movimentos, e a câmera, nos primeiríssimos minutos, hipnotiza-se pela coreografia de Carol Brandão (que é também uma das realizadoras do curta; a terceira realizadora é Alice Jardim), acusa uma quase paixão por aquela sinfonia da somatologia, cujos balanços evidenciam a necessidade do equilíbrio, e é justamente pelo equilíbrio que o filme muda sua paisagem e é redimensionado à altura espacial composta pelo mar. Nesse outro plano-dimensão, Carol é agora um corpo completo, cuja câmera parece querer sugá-la, mas que respeita a respiração essencial daquele corpo, de seu espaço. Cada nova contorção, uma pegada, um rastro é deixado, mas logo consumido pela água do mar (essa entidade jamais inamovível). A entidade do rastro somático não é capaz de sustar o universo em si que é o Oceano.

E se o primeiro plano de Criatura é um ventre – signo inconfundível do nascimento –, e o primeiro plano de Zoé é a fisionomia de um rosto (uma identidade) com sua respiração ultra ventilada, é porque esses filmes-irmãos confluem em suas respectivas aberturas para a composição do corpo (ventre, rosto, respiração), para a planificação e sideralização de tal entidade. E se Zoé tem o background fantasmagórico de Metrópolis e em sua sucessão, o chão do primeiro cinema, é porque Zoé e Criatura não somente querem compor um corpo, mas também tentar buscar a genealogia influenciadora de todo um cinema, em suas vertentes e, principalmente, em seus abismos. Há o insondável que percorre ambos os filmes, porque o corpo é esse enigma enquanto entidade: ao formar-se em sua composição quintessencial, seu destino já está há muito traçado: elidir-se à altura do tempo – e alegoricamente, Criatura termina com o corpo que, após formado e de tanto aproximar-se da câmera (e de nós) simplesmente, evapora-se em seus rastros apagados pelo ar do tempo, pelo mar.

Ricardo Lessa Filho

Agosto de 2013


ISSN 2238-5290