Hoje Não (2013, Wagner Sampaio)

Um caminho a seguir?

Hoje Não, de Wagner Sampaio, parece de alguma forma (num sentido de escolha, ainda que esteticamente falte-lhe uma forma) sintetizar a composição cinéfila desse jovem cinema alagoano: as efígies nas quais os diretores presenciam a alavanca da realização tendem sempre à busca de uma espécie de retorno a um mesmo nicho enquanto influência de “cinema”. Pois é notável, óbvio, ululante, os signos de representação de Hoje Não (como era também de A Banca, seu antecessor espiritual e um filme bem mais acabado e inspirado), cuja analogia perversa não é outra coisa senão uma démarche cadavérica, o ciclone de Thanatos que conduz a um futuro impossível – porque já está morto.

“Morto”, no futuro, e também no presente (isso é, no plano de sua presença) narrativo de seu plot, que conta a história de um jovem que quer se suicidar pulando de um prédio e de um assassino (o mesmo de A Banca) que, no alto desse mesmo prédio, trata quimicamente dos pedaços anatômicos de alguma vítima sua (talvez um dos dois garotos do filme anterior?). “Vítima”, pois o filme é em seu plano narrativo, vitimizado pelas referências a Tarantino: mas são referências sem profundidade genealógica e esse vazio ontogênico é a maldição, a impossibilidade sobre aquilo que jamais tivera a oportunidade de ser Origem – originar-se para além de uma única e paupérrima referência, quer dizer, sobrevoar a sua própria História, edificar o seu próprio Espaço, seu próprio Tempo.

O cinema não é (somente) referência – é genealogia, e Hoje Não se limita, sobretudo, a um “tipo”, a um negativo estéril, e talvez seja por isso que durante sua curta duração o filme, de fato, nunca pareça ter sido realmente revelado.

Ricardo Lessa Filho

Agosto de 2013


ISSN 2238-5290