Succubus (2013, Andrey Melo)

Névoa e antiforma

Fazer um filme narrativo exige, sempre, alguma coisa de onírico, de um certo confronto que precisa ser posto para fora – deixar de ser abstrato, de ser apenas um sonho. Mas fazer um filme narrativo é também para o diretor (como fizeram Robert Beavers ou Bruce Baillie – dois cineastas experimentalmente seminais para qualquer jovem cinema, isso é, essencial a um cinema iniciático como o de Alagoas, hoje) uma continuidade entre a estrutura física do meio e de cada ação, por mais simples ou complexa, em volta da realização do filme. Um sentido corporal do ato de filmar é de algum modo sustentado através da montagem – e de tudo aquilo que é sobreposto à imagem em sua pós-produção.

E é sobre essa sustentação que Succubus desmorona. Sua ruptura é essencialmente extra-diegética, pós-imagem capturada: no momento em que se enche de névoa para evidenciar o demônio em forma de mulher que consome os sonhos sexuais masculinos e que dá nome ao filme, Succubus faz uma escolha medonha: elide a sombra da imagem – as silhuetas possíveis –, e grava em relevo estético o borrão branco esvoaçante, condenando a efígie que projeta à nódoa da incompreensão e da não-potencialização de suas forças enquanto imagem criada para contar uma história. O filme é isso: um borrão sem formas, sem delicadeza (e apreensão) para com aqueles corpos corajosos (os atores ficam semi-nus, às vezes, completamente nus) e para aquela história de amor sexual.

Um filme que é pura e simples névoa (tentativa de emular um sonho?), e que camufla (inconscientemente) do espectador o verdadeiro desejo somático em troca de devaneios oniróides. Succubus é unicamente brilhante naquilo que o aniquila: sua antiforma.

Ricardo Lessa Filho

Agosto de 2013


ISSN 2238-5290