BRÊDA (2013, Álvaro Lins, Felipe Fonseca & Trinny Alarcon)

Duas lendas: a urbana e a do enquadramento

BRÊDA* em seus pouco mais de oito minutos, faz emergir, pela narração (depoimento) e pela forma (enquadramento), duas lendas que ajudam sua composição enquanto fragmento de uma memória não somente esquecida, mas, sobretudo, abandonada. A lenda da narração-depoimento se cogita no instante em que os entrevistados rememoram a história daquela existência (aqui, no caso, do Edifício Brêda, histórico prédio da cidade de Maceió), narrando as (suas) lembranças mais íntimas, mais afetivas. Mas por entre a intimidade e o afeto existe a construção do temor da existência (e o Edifício é uma existência em si mesmo), e dessa edificação surge o ventre do macabro: a mulher que cometera suicídio em um dos andares do prédio, as possíveis assombrações intrínsecas à morte** – ou as suas tentativas -, os constantes assaltos ao local. Essa junção de fatores, acopladas ao abandono do edifício enquanto coisa física e de concreto (um forte concreto, impossibilitando inclusive a colocação de pregos em suas paredes, como lembra um dos entrevistados-fantasmas), corrobora na efetivação da criação das (pelo menos) duas lendas que o compõem. Essa primeira lenda é óbvia a qualquer coisa que insiste em se reter no urbano e no tempo: a lenda urbana.

A segunda lenda que plana em BRÊDA é, de fato, a mais interessante em termos cinematográficos: a lenda do enquadramento, isso é, a compreensão que os realizadores Trinny Alarcon, Felipe Fonseca e Álvaro Lins e a sua (talentosíssima) diretora de fotografia, Alice Jardim, possuem do tempo e da respiração de um plano, de sua forma, construindo momentos em que o enquadramento parece constituir e expandir algo bem maior do que a pequena duração do filme possa suportar. Em BRÊDA não existem as “cabeças falantes” das pessoas que narram-depõem, mas antes, enquadramentos que dialogam com o tempo, com o abandono, com as tonalidades (in)comuns do cotidiano urbanista, com a somologia do concreto e com a tentativa de retomar a lembrança – e como conseqüência, também, retomar e reacender a história dessa existência.

*curta realizado pelo projeto Sesc – Ateliê de Cinema
** e os depoimentos-fantasmas no filme contribuíram ainda mais para o tom de lenda urbana, pois nós apenas escutamos suas vozes, mas (quase) nunca visualizamos os corpos daquelas vozes.

Ricardo Lessa Filho

Agosto de 2013


ISSN 2238-5290