Matador (2013, Wladymir Lima)

O desespero da montagem

Há em Matador, de Wladymir Lima, um vínculo com a velocidade da montagem que, de algum modo, parece sintetizar a força espoletada do jovem cinema de Alagoas do qual o filme faz parte. Um filme cuja montagem, ainda que veloz, permanece inacabada duplamente: em seu corte final (o filme foi exibido em seu primeiro recorte) e em sua estrutura formal. Há três momentos distintos no filme (e que a montagem não consegue elucidá-los, contrair ou expandi-los, enfim, não consegue formar a unicidade):

1) Em sua abertura, quando o filme nos apresenta seus dois principais personagens: o matador e a vítima, prestes a ser executada. A montagem é concebida pelo signo da espoleta: a vítima consegue se desvencilhar do matador e começa a fugir por entre o bosque em que segundos antes estava condenado à execução. É o instante de maior potência do filme, pois existe ali um certo desespero que consegue ser conectado ao espectador.

2) Quando o filme, abruptamente, corta para uma mulher esperando alguém, uma espera em que o sentido da montagem é extraviado, já que a quebra rítmica, aqui, parece condenar toda a explosão física do filme. E essa mulher esperando alguém em casa (o matador ou a vítima?), volta a retornar em outros dois ou três momentos do filme (e não somente consome um precioso tempo na narrativa entre matador e vítima, como que o corpo dessa mulher parece um alienígena negativo em toda a estrutura de narração e de forma da obra).

3) Em seu último ato, Matador, pela sua montagem inacabada, de fato, transmite essa estranheza do contra-acabamento, das coisas feitas sem a tranquilidade do repouso, isso é, o filme não pode ser analisado em sua totalidade com o primeiro recorte de sua montagem, porque até o seu próprio final é o resumo dessa angústia, dessa pressa pela exibição a qualquer custo, mas que quando realmente terminado, o revisitarei sem receio algum, porque ele é, grosso modo, uma tentativa interessante de velocidade na montagem.

(Mas ao seu término, Matador segue sendo um filme sem fim)

Ricardo Lessa Filho

Agosto de 2013


ISSN 2238-5290