Mwany (2013, Nivaldo Vasconcelos)

Onde jaz o coração do afeto

Quando escrevi sobre Touki Bouki, fiz questão de evidenciar que esse filme de Djibril Diop Mambéty (assim como todo o grande cinema africano) era sobre a fuga do corpo, sobre a eclosão muscular dos protagonistas que nessa ação encontrava a possibilidade de expansão da vida (ou do sonho dela), que era para o protagonista, escapar de seu país natal, o Senegal. Em Mwany há em alguma instância, também, a perspectiva da fuga: Sónia, a figura central do documentário de Nivaldo Vasconcelos é uma fugitiva, no sentido em que deixara seu país natal (Moçambique) para viver em Maceió, mas uma fugitiva (do)pelo corpo, jamais uma fugitiva da memória, de sua ontogenética, de sua história genealógica.

Sónia é um maelstrom do afeto, da lembrança dessa história, e é por isso que há em seu coração, sempre, a sensação de um duplo deslocamento: espacial e afetivo. O verdadeiro espaço de Sónia jamais poderá ser substituído pelo tempo, e é um espaço, hoje, para ela inabitável enquanto estiver presente em Maceió: porque esse “verdadeiro espaço” é o chão africano, o solo de Moçambique. Quando ela utiliza-se do mussiro* a preencher todo seu rosto, compreende-se aí que é um ato cuja significação não pode ser somente ascendida como algo relacionado à estética da pele (e talvez até seja a estética da pele, mas num sentido fenomenológico, bem mais profundo do que simplesmente o da beleza exterior), e sim como mais um ato de recolocação de sua cultura no estrangeiro, de sua intimidade histórica relacionada à terra natal, à origem.

Os corações do afeto e da lembrança são os mais sensíveis e os menos materiais das coisas. É o elemento vital por excelência. É a condição primeira e o signo da Arte, como a respiração o é da vida; a respiração que se precipita ou esmorece, torna-se regular ou espasmódica, conforme a tensão do ser, o grau e a qualidade da emoção. Assim é o ritmo na sua pureza primitiva, assim o é nas obras primas da Arte Negra. E Sónia é essa matéria prima, é essa “seiva que se funde com o sangue”, essa nação aberta, plural, cuja silhueta preenche para sua pequena filha, todas as possíveis lacunas do afeto pela distância familiar. Esse coração do afeto é de um tema que se opõe a um outro tema, irmão, como a inspiração e a expiração, e que é repetido. A simetria desse coração afetivo não engendra a monotonia, o ritmo é vivo, é livre… É assim que o ritmo age sobre o que há de menos intelectual em nós, despoticamente, para nos fazer penetrar na espiritualidade do objeto; e essa atitude de abandono que nos é própria, é, ela própria, rítmica, de emoção.

E quando Sónia fala da árvore genealógica de sua pequena filha Thandy, liberta-a, possibilita, então, um segundo nascimento, que sua prole finalmente descubra a tal árvore da genealogia no tempo em que achar necessário – o mais profundo descobrimento reside, justamente, na liberdade que nos é concedida para finalmente sermos capazes de apreendermos a totalidade dessa experiência. A experiência de um coração repleto de afeto, pois quando a protagonista, emocionada, diz “as coisas do meu coração são só minhas e mais de ninguém”, foi impossível para mim não lembrar de Goethe**, mas mais do que uma mera lembrança pessoal, a frase recopila aquilo que transborda por seu corpo: o sintoma irreversível da paixão à pele, dos vestígios do amor contínuo que só podem ser inferidos por um laço que não pode ser legitimado senão pelo signo do sangue materno – e aqui, duplicando sua significação: o sangue materno que liga Sónia à Thandy, e o sangue materno que liga Moçambique à Sónia.

É essa saudade da terra tão prestes a ser eliminada (a protagonista diz que no mais tardar em 2014 pretende voltar ao país natal), que a cena em que Sónia segura e depois começa lentamente a derramar um jarro com água até esvaziá-lo parece profetizar: de que o tempo no estrangeiro está findando, que o oxigênio desconhecido já não mais será inspirado por aqueles pulmões, que, portanto, é por causa da lembrança, do fragmento mais íntimo de sua memória que a necessidade de retornar à flor do mar africano foi reascendido; é necessário voltar ao local da primeira “lapada” materna, aquele momento de contração da pele, na fusão entre a dor da lúnula e do choro infantil que consagra de forma irremissível e eterna filha e mãe, mãe e Terra. Evoé.

* Máscara para a pele que as mulheres de Moçambique usam, feita da planta homônima, que dizem ter propriedades rejuvenescedoras.

** Em Os Sofrimentos do Jovem Werther, Goethe escreve uma passagem mais ou menos assim, através do personagem de Werther: “O que eu sei todos podem saber, meu coração, porém, só a mim pertence”.

Ricardo Lessa Filho

Agosto de 2013


ISSN 2238-5290