Exu – Além do Bem e do Mal (2012, Werner Salles Bagetti)

Medo de quê?

Frantz Fanon disse certa vez que os gestos que o negro africano faz ao supostamente receber o espírito de alguma entidade é, na vera, a exteriorização daquilo que a História sempre o impossibilitou: transformar-se numa entidade de retaliação ao homem branco que o escravizou e dizimou, que tentou fazê-lo à luz do tempo um ser inferior. É com essa proporcionalidade minimizante que a cultura negra também foi concebida dentro do mundo branco: religião, arte, moda, tudo aos olhos do Ocidente quando vindo do homem africano parece algo demoníaco, possuído por forças malignas a quem os racistas ocidentais não temem em cunhar como “coisa negra”. O termo negro, aliás, sempre conotando algo impuro, maldito, abominável (“a fase negra da vida”; “o destino negro”).

Exu – Para Além do Bem e do Mal vai ao seu modo reconstruir o olhar existente sobre a religião negra: não há nada para temer nela, o medo em si não é outra coisa senão a reação da psique para aquilo que fora introjetado pela cultura branca. Uma reação cujo tom é de cair sobressaltado por aquilo que não é comum ou óbvio, mas de forma alguma pode ser considerada maléfica ou tenebrosa. O Candomblé é a religião por onde o corpo transborda a energia enclausurada da vida “normal”, cotidiana. É no momento ritualístico em que o corpo se faz expansão, em que nas poderosas contrações somáticas receberá as oferendas, libertará as almas aprisionadas.

O filme de Werner Salles está vinculado à experiência da experimentação, e é justamente por isso que as fusões imagéticas aqui parecem tão naturais e sucessivas. É na montagem onde o corpo da imagem é moralizado: o imagético em Exu significa, sabe da força que tem ao respirar e ao enquadrar tais cenas, porque a desmistificação de um racismo (já nos mostrara Samuel Fuller em Cão Branco) só pode ser legitimada quando o racista é eliminado, no caso dentro do filme, quando os conceitos retrógrados de uma religião cristã defasada (que é o inverso da religião africana, pois enquanto essa propõe a libertação do corpo, a outra, em sua essência, trabalha pela sua reclusa pastoril e de rebanho) forem abolidos de forma total.

Não há outro instante possível para Exu a não ser agir pelo signo do movimento, das fusões entre corpo e voz, entre entidades recebidas e libertadas. Esse confronto essencialmente somático parece ser a única direção possível para a verdadeira libertação – tanto da religião africana quanto para a imagem que aqui é concebida a partir dela.

Ricardo Lessa Filho

Agosto de 2013


ISSN 2238-5290