Dragon Ball Z: A Batalha dos Deuses (2013, Masahiro Hosoda)

O desenho de muitas infâncias

Assistir o novo filme de Dragon Ball Z é antes de tudo, um retorno de certo momento por mim esquecido. Isto é, portanto, para mim, a rememoração de uma época de minha infância que pelo o que consigo lembrar, se juntavam cinco, seis amigos do meu bairro para assistir ao “novo-velho” episódio da animação japonesa. Era um momento sacro: da música introdutória sendo cantada no mais alto dos pulmões, ao silêncio completo quando o desenho finalmente começava – e claro, da reclamação em uníssono quando o episódio “enrolava” demais.

Nesse novo A Batalha dos Deuses, de Masahiro Hosoda, reencontramos um DBZ lançado à altura da minha história (e daquele grupo de cinco ou seis amigos): quase quinze anos se passaram desde o dia que vi pela primeira vez o Goku se tornando Super Sayajin, e aquele foi um momento que me arrepia até hoje quando o reencontro de forma repentina pelos pântanos da lembrança – essa cena foi, sobretudo, um processo de catarse de minha infância: ter visto finalmente o personagem animado mais importante de minha vida alcançando o “estágio sagrado” dos Sayajins; e tudo o que aquele momento representou para mim: fúria, choro, esperança. E é justamente sobre o “estágio sagrado” que A Batalha dos Deuses tem como tour de force em seus oitenta minutos. Para ser mais preciso, o filme narra a chegada de Goku ao nível supremo: o Super Sayajin Divino, e para tanto foi necessário a junção de cinco outros Sayajins de “bom coração”.

A “aquisição” do novo inimigo, o sétimo Deus da Destruição, Bills (e por ser o sétimo deus, é a sétima entidade mais forte do universo, e que mesmo usando setenta por cento de seu poder, conseguiu derrotar o Goku divino), não é outra coisa senão uma resposta tardia de duas décadas ao horroroso Dragon Ball GT, e principalmente, a um dos piores filmes da história: Dragon Ball Evolution (2009), de James Wong.

A Batalha dos Deuses de algum modo me trouxe uma emoção semelhante àquela de minha puerícia, porque no filme existe todos os dispositivos que me fizeram amar contigentemente a série criada por Akira Toriyama: as imperfeições do relevo dos personagens, o orgulho e a preservação dos laços familiares e de amizades, a comédia ingênua (aqui, como resquício da época vigente, suaves alusões à homossexualidade que funcionaram muito bem), e acima de tudo, a certeza de que Goku, de um jeito ou de outro, salvará a Terra do mesmo modo como salvou a minha infância e a de milhões de outras pelo mundo. Volte logo, Kakaroto.

Ricardo Lessa Filho

Setembro de 2013


ISSN 2238-5290