The Bling Ring (2013, Sofia Coppola)

Existe alguma coisa fora do lugar. Algo deslocado num mundo que já não comporta seu próprio reflexo na tela. É isto o que concentra cada um dos filmes assinados por Sofia Coppola, e em maior ou menor grau, todos refletem ou partem das consequências que este estranhamento provoca em certa concepção de imagem assumida pelas relações humanas. Sua investigação se depara sempre com a consciência que um ser adquire dos próprios atos dependendo do ponto de vista em que seja enxergado. Astros de cinema, autoridades políticas, adolescentes em crise, seus protagonistas não sobrevivem publicamente dissociados da imagem que carregam e os antecede, mas — e esta é sua ironia maior — eles só nos importam, num sentido fílmico, pela distância que cavam deste imaginário social, naquilo que se esforçam por manter de sua individualidade, do que secretamente vivem em quartos de hotéis, estradas desertas, depois que as luzes se apagam e as festas se encerram. Daí um cinema tão íntimo e crepuscular, sinfonia de poucas e repetidas notas, agora reagrupadas por esta nova dimensão de especularidade que invade sua carreira através de The Bling Ring, uma de suas mais incisivas abordagens sobre o status quo da imagem contemporânea, esta que emerge das tecnologias e que inventamos de nós mesmos para tentar fugir da mais irremediável solidão a que nosso tempo histórico nos condena.

Ao se voltar para um registro quase antropológico de uma parcela da fauna juvenil e nela identificar problemas que não são apenas de Hollywood ou de uma faixa etária restrita, o cinema de Sofia se reafirma como um reduto para o que ainda resta de subjetivo na identidade humana. Um franco questionamento do que o capital impele ao ser social, pela exaustão de etiquetas e nomes, de grifes e desejos massivamente forçados, responsáveis por uma absurda ética da representação que se pauta naquilo que um corpo passa a comunicar, de acordo com o que veste e emoldura para lidar com seus semelhantes. Neste sentido, The Bling Ring não é fruto tão exclusivo de seu tempo, como alguns se apressam em dizer. Todo ele já se encontra e filia em boa parte do que o cinema americano explora, pelo menos desde os anos 50, em juventudes transviadas e sem causa evidente de politização do mundo. Seu diferencial reside muito mais no que ele evoca de contraste para com a própria carreira da diretora, no que o acusaram (apressados, de novo) de contraditório em relação à coerência interna de Sofia Coppola, com seus tons habitualmente graves e melancólicos. Prestemos atenção: nenhuma das cores, luzes, músicas e histeria que demarcam o contexto dos jovens inconsequentes de The Bling Ring, anula a tristeza de incontáveis planos do filme, denunciadores de indivíduos que de tão vazios e superficiais, chegam a alcançar com isto uma profundidade que muito interessa para as imagens da cineasta.

Não é suficiente constatar a dubiedade ética de uma juventude desprovida de padrões. O que Sofia nos convida a fazer é refletir o quase total aniquilamento dos limites permitidos à ilusão, dentro e fora do cinema, em vidas e situações que podem ou não ser manchete da imprensa. Tomemos o exemplo da cena em que os jovens ladrões invadem a mansão de uma celebridade (Audrina Patridge), capturada num único plano noturno que se aproxima muito lentamente do cenário enfocado: uma casa de vidros e luzes, espaço-irmão daquele igualmente violentado pela câmera voyeur de Brian De Palma, em Body Double (1984). Cena que culmina num tour de fource para Sofia Coppola, traçando um paralelo com o filme oitentista que ultrapassa em muito a duração deste plano. Afinal, já era De Palma outro dos questionadores da imagem, do que falsamente emana de Hollywood para a satisfação de instintos nunca satisfeitos pela realidade – há de se registrar a recorrência com que este diretor tem se relacionado com o cinema da geração presente. O plano-sequência de The Bling Ring, pelo rigor de sua orquestração, é um dos primeiros a redimensionar o nível e a consciência do risco que estes delinquentes correm, justamente por não compreenderem que as suas ações são condenáveis e inconciliáveis com a organização de uma sociedade que se estabelece pelo domínio da propriedade privada. Eis um plano que evidencia a fragilidade do glamour, a inexistência da segurança física sobre espaços e corpos que já não se distinguem, mas que são constantemente vigiados e tornados imagens, pixels de mecanismos sem vida.

E para fazer valer o imaginário típico da cineasta, somos novamente brindados com singulares enquadramentos de alcova, preenchidos com personagens que confrontam a sua solidão mediante os furtos cometidos, dentre os quais, pelo menos dois merecem absoluto destaque: no primeiro, temos a garota que lidera a gangue (Katie Chang) realizando-se escondida no quarto de Lindsay Lohan enquanto passa o perfume de sua diva, diante de um espelho notavelmente iluminado, mas do qual não vemos o reflexo. O slow motion comanda a cena. O estado de sonho, delírio juvenil, mas amplamente humano, de ser como seu ídolo, de enquadrar-se na imagem que admira e idealiza. Muito acertada a decisão de não encaixar na tela a imagem refletida, pois o próprio corpo da jovem não se sabe mais seu, já que parcialmente possuído pela inspiração de outro — corpo modelo, de Lindsay, que também é dos mais significativos para se pensar a atual Hollywood. E um segundo enquadramento singular, este em que o único rapaz da gangue (Israel Broussard), descansa sobre a cama calçando os sapatos que roubara de Paris Hilton. É um plano muito breve, mas que mobiliza o olhar e o despadroniza, dando conta de toda a complexidade oculta pelo cotidiano medíocre desta juventude. Que se guarde a delicadeza com que este personagem é construído durante o longa-metragem; talvez o adolescente americano mais interessante a protagonizar um filme desde Paranoid Park (2007), especialmente se considerada a polaridade da culpa que opõe este e aquele, criminosos involuntários que pagam pelos seus erros na maneira como são assaltados pela extremidade de um close, seja no chuveiro, com Van Sant, ou num ônibus prisional, com Coppola.

Se The Bling Ring extrapola a calculada qualidade que possui de documentar estas intimidades feridas pela superexposição dos tabloides — feridas, pois vitimizadas junto à mesma mídia que as subjugou, transformadas no próprio espetáculo de horrores que todo o filme parecia criticar —, não é por oferecer qualquer julgamento direto do material que encena, mas por extrair deste conteúdo um tratamento que se completa na simples maneira de torna-lo presente. Não se espera aqui a justificativa ou a confissão, mas o desdobramento em formas proveniente da caótica configuração de um mundo sem rédeas, passível de ordem pelo que ainda é possível narrar, sem que se confie apenas nas imagens capturadas pelas câmeras de segurança. Como sempre, para Sofia, mais importam as imagens da História que não podem ser comprovadas, as palavras que se dizem silenciosas ao pé do ouvido, ao invés das que se permitem registrar publicamente. É nesta invenção, amplamente partilhada com o espectador, que se encontra aquilo que saiu do seu lugar devido, mas que preencheu de algum jeito uma nova possibilidade de mundo. Pois nem tudo tem apenas uma opção de lugar para existir.

Fernando Mendonça

Outubro de 2013


ISSN 2238-5290