Levoton Veri (1946, Teuvo Tulio)

Há duas cenas incontestes e absolutas em Levoton Veri. A primeira e a última. Dois momentos, dois personagens: a jovem menina enferma e o então jovem médico. A primeira cena: a paixão que como brincadeira se instala pela invocação dos corpos tangentes, pelo tato indispensável do médico na paciente, mas, sobretudo, pelas pulsões gestálticas e afetivas da câmera de Teuvo Tulio, condicionando o signo daquela primeira paixão como cesura que latejará por toda uma vida. O ultra-melodrama de Tulio finalmente ascende em sua força suprema: a irmã mais velha da jovem enferma também é apaixonada pelo médico, mas com a diferença fundamental: entre ela e ele, o sentimento ultrapassa a invocação tangente, de fato, se instala na densidade da carne e na vaporização do sexo. A mais velha se casa com o médico. Em seu casamento, assistimos a um plano extraordinário da irmã mais jovem, devastada pela perda do amor, entrando a mancar e com muletas (a perna quebrada foi o motivo de sua consulta com o jovem médico). Tulio, no que era para ser um simples plano de uma perna machucada, nos mostra toda alma em agonia daquela personagem, viva por um fragmento anatômico – que a rigor parece aprisionar o desespero da alma maculada pelo amor derrotado. A irmã mais nova desaparece do filme (e pelo extracampo descobrimos que ela jamais esqueceu daquela paixão). Tulio nos mostra um casamento perfeito. Um filho. Toda felicidade possível. Mas a criança morre. A esposa fica cega. A irmã mais nova volta. E a esperança daquele primeiro amor retorna enquanto memória inesquecível. O último plano do filme: a cega compreensão de que amar é a exposição da leveza do ser ainda que desesperado, do desejo de seguir um caminho que não pode ser seguido sozinho. Abandonar a vida por amar alguém que ama um Outro: eis Teuvo Tulio, eis o seu ultra-melodrama.

Ricardo Lessa Filho

Outubro de 2013


ISSN 2238-5290