Fogo Inextinguível (1969, Harun Farocki)

Talvez nenhum outro cineasta tenha conseguido em toda história, já em sua primeira cena de seu primeiro filme*, apresentar tão claramente uma carta de intenções pessoal para com o cinema, quanto Farocki o fez em seu emblemático curta-metragem sobre a fabricação e os efeitos do napalm nos horrores da guerra — ou pelo menos ninguém conseguira tal feito desde os Lumière. Ao optar por protagonizar a cena, o jovem diretor enfatiza a proeminência do seu olhar e das consequências que assume sobre si próprio, não apenas pela discussão de temas urgentes, mas pela maneira que encontra para encená-los, numa espécie de anti-representação que se manifesta como antítese por ser incongruente junto ao olhar do público, incompatível com o domínio da tela. É dele o texto lido: “Se lhe mostrarmos queimaduras de napalm você fechará os olhos. Primeiro fechará os olhos por causa das imagens; depois fechará os olhos por causa da recordação das imagens; depois fechará os olhos perante os fatos; depois fechará os olhos a todo o contexto.” Daí a alternativa de ocupar o preenchimento da imagem com um exemplo restrito de queimadura sobre o seu próprio corpo, com a ponta de um cigarro. Ora, pode o napalm queimar numa potência mais do que dez vezes maior, como ele informa, mas poderiam os olhos confrontar uma imagem desta verdade? Eis o questionamento perseguido por todo o cinema de Farocki: de que adianta ver se a resistência antecede os olhos? E a partir disso, somente com a plena consciência dos limites intransponíveis de sua expressão, podemos exercitar uma nova aprendizagem dos códigos visuais, na dinâmica que estes atravessam junto ao tratamento do cineasta. Farocki se oferta como vítima de um flagelo, mesmo sem esboçar reação alguma (pois isto cabe aos nossos olhos), despertando problemas que ainda hoje ocupam o cerne de sua produção e muito mais deveriam inspirar novos posicionamentos ante a imagem contemporânea. Este olhar que se coloca como sujeito e objeto, que avalia e interfere, no simples condicionamento de uma dúvida — poder ou não poder ver; ser ou não ser através de um enquadramento —; contra a extinção da própria imagem como fogo, em perpétua combustão de valores e desvios humanos.

* O diretor é responsável por experiências anteriores na curta duração, mas este foi seu primeiro filme oficialmente finalizado fora da Escola de Cinema de Berlim.

Fernando Mendonça

Outubro de 2013


ISSN 2238-5290