Em Trânsito (2013, Marcelo Pedroso)

Em sua primeira apresentação pública, o novo filme de Marcelo Pedroso reafirma a mais básica condição do cinema em mobilizar não somente um estado das coisas, lapidando o movimento naquilo que preenche a tela, mas também em extrair de seus espectadores uma imediata reação do que veem, desdobrando a mobilidade dos espaços a níveis que aprofundem o conceito de espetáculo, na maneira como ele ainda pode ser aplicado em tempos que arriscam um esgotamento do audiovisual: aqui (ou, pelo menos, na sala do Cinema São Luiz), a imagem reage ao mundo e o mundo responde, sem lapsos, ao que lhe é duplicado. Foi na noite do último dia 17, dentro do VI Janela Internacional de Cinema do Recife, que a estreia de Em Trânsito provocou um dos maiores frissons de todo o festival. Foram pelo menos três explosões de palmas, no lotado templo da cinefilia, que preencheram a sonoridade da projeção, no decorrer mesmo do filme, comprovando que nem sempre o silêncio é a melhor postura a se ter num espaço coletivo. A euforia do público, coroada com o reconhecimento do próprio Janela em contemplar o filme com três prêmios, poderia ser apressadamente justificada na maneira como Pedroso se sintoniza com o atual momento histórico vivido pela política recifense — eis um filme que não se intimida com citações explícitas aos nomes do poder. Mas não é somente de uma cidade ou estado nacional de que trata seu filme, nem mesmo de um contexto limitado a determinada geografia. Em Trânsito assume como centro de seus questionamentos uma problemática humana que muito bem pode ser discutida em qualquer lugar do mundo, sob perspectiva já prenunciada por diversas obras modernas, dentro e fora do cinema.

As primeiras imagens do curta apresentam uma linha de montagem automobilística. Poderíamos estar num documentário de Harun Farocki, pensador-chave para a carreira de Pedroso, pois sempre equilibrado na tênue linha que traceja a realidade dentro dos gêneros. É mesmo com uma rigidez alemã que somos aqui introduzidos ao sol brasileiro. A grande abertura de plano sobre o estacionamento de carros, com a cidade ao fundo, antecede a cena que realmente dá o tom do filme: um protagonista (seu Elias) acorda com um telefonema; do outro lado da linha, uma gravação eletrônica com a voz do governador pernambucano pede apoio nas urnas das próximas eleições. A fonte dos primeiros risos na sala de cinema, ao mesmo tempo em que inicia o distanciamento documental, orienta os espectadores ao sentido da sátira, mas também demarca o estranhamento que atravessa o olhar de Pedroso na observação que faz de sua realidade social. O telefonema que abre Em Trânsito facilmente poderia ser dado a qualquer protagonista numa primeira página romanesca de Kafka. Daí ser o nome do governador item dispensável para se pensar este gesto inicial como símbolo de uma estrutura maior, que faz de Recife um cenário possível para os grandes confrontos burocráticos do literato (O Processo; O Castelo; O Veredicto). Nestes romances, como em Pedroso, a voz e a face do poder são inorgânicos, inacessíveis, tornando a vida do cidadão comum uma repetição sem sentido de movimentos que visam apenas o perpetuar de um status quo ilógico, mas devidamente automatizado por todos que dele participam.

O filme prossegue, a casa de seu Elias é destruída por um trator da prefeitura, ele pensa na possibilidade de ‘adequação ao meio’ e decide pela compra de um automóvel. As cenas na concessionária terminam por definir a estrutura híbrida com que aqui lidamos, pois se já nos sentíamos afastando do documental, agora mergulhamos fundo num registro de humor que mais se aproxima das paródias televisivas, com grande apelo popular — o que também explica a passionalidade do público presente. Risco assumido por Pedroso, o de fazer seu filme perder-se entre gêneros sem temer a diluição da unidade final, enfrentando tudo com sensibilidade e refinamento; pois se em nenhum momento os signos visuais (abundantes) e discursos verbalizados (mínimos) desequilibram os efeitos pretendidos, muito disto se deve ao cuidado de ousar a experiência na própria linguagem do curta, dentro do que até o seu título indica. Afinal, não são apenas as relações humanas ou a conduta política regente que se conscientizam em trânsito dentro do filme, mas toda uma expressividade que dá forma de cinema ao mesmo e prossegue distinguindo a amplitude do meio para seu diretor. Considerando uma filmografia que já se ocupou de fuscas, balsas, cruzeiros e aviões, sem jamais concentrar preocupação maior que não seja a do movimento provocado pelas imagens em que todos estes transportes são guardados, torna-se imperativo observar a maneira como estes deslocamentos são agora redirecionados pelo acento crítico de Em Trânsito, filme que não se perde entre tantos desvios.

Valer-se de recursos que tanto o aproximam do cinema mudo é mais uma das características que conciliam a reflexão presente ao que vemos desde Chaplin, diretor que tanto custou a aceitar as vozes humanas dentro de seus filmes e nisso aproveitou para encenar homens que, de fato, não possuem voz alguma dentro da sociedade. O inesquecível operário de Tempos Modernos, eis o contraste, pelo menos era uma peça dentro daquele sistema mecânico; o que não é o caso de seu Elias, alheio a todos os processos que ditam seu cotidiano e, a certa altura do filme, representado como pivô de repetição das máquinas. É genuína a cena em que ele coreografa com o corpo os mesmos movimentos de um trator, quando já não sabemos se a imitação vem dele ou da máquina, afinal, qual deles ganha real prioridade na política do séc. XXI? O tom de pesadelo que atravessa, pelo subterrâneo, o humor do curta— terá mesmo seu Elias acordado na cena introdutória? — é sublimado pela confissão onírica que o personagem assume nas resoluções finais, quando aparece como grande regente de toda esta sinfonia das máquinas que ocupa a sua cidade, por mais que seja forçado de nossa parte considera-la como sua. Não por acaso, na poética destas imagens restituidoras de algum controle das coisas — nem que apenas um domínio da satisfação existencial —, Pedroso decide enquadrar seu Elias tendo como único pano de fundo o céu. No corpo do homem, recortado pelas nuvens e pelo azul, a maturação de um sonho que necessita do ângulo de câmera para se concretizar, para contaminar aqueles que o assistem com a possibilidade de alguma beleza em meio ao caos.

No debate ao término da memorável sessão, o diretor esclarece que toda a idealização do filme antecedeu em pelo menos um semestre às manifestações de Junho. Sendo assim, não procede a possibilidade de aí encontrarmos um projeto oportunista, mas, mesmo que o fosse, e respondesse diretamente ao episódio histórico, não perderia o mérito de encontrar a exata e ideal oportunidade de colidir com tantas urgências que precisam constar na pauta de nossos cinemas. Em Trânsito está mais do que sincronizado com as necessidades de seu público e do mundo que acusa. Já se afirma como um dos gritos de protesto mais contundentes do cinema nacional em 2013, sem medo de envelhecimento ou retaliação. E muito mais pode ser pensado a partir de seu lugar no contexto atual de produção, pois desde a sua primeira imagem a reflexão crítica se estabelece: não pelas cenas com seu Elias, ou na automobilística, mas naquele primeiro letreiro de créditos que nos lembra ser este um filme financiado com dinheiro público, via editais. Um cinema que encontra em si mesmo a força da confrontação, que nos seus recursos estabelece a resistência. Um cinema que não precisa repetir ou confirmar se o gigante acordou ou não, pois longe dele ter a ousadia de uma certeza. Um cinema que, ele sim, permanece muito bem acordado.

Fernando Mendonça

Outubro de 2013


ISSN 2238-5290