1ª Noite

NOTA: Devido a problemas técnicos, os curtas O Sol Encarnado e Diários não foram exibidos na primeira noite da mostra. A organização informou que ambos serão exibidos na noite de hoje (07/12). Consequentemente, as impressões sobre estes filmes aparecerão por aqui apenas amanhã.

Futebol na Terra da Rasteira, de Thalles Gomes

Na noção de futebol de Thalles Gomes existem alguns intrusos inevitáveis, entes que com o passar do século não puderam ser reprimidos ou excluídos da aura dessa arte. Os primeiros minutos de Futebol na Terra da Rasteira, cobertos pela voz off de Marcio Canuto lendo texto de Graciliano Ramos, são logo de partida a metáfora direta dessa invasão talvez não desejada para a maioria dos programas de esporte: ao invés do futebol-arte, temos como regra uma sequência de imagens de violência pura que, como de praxe em toda arte, nasce ali ao lado de uma outra face, dotada da mais pura beleza. Rasteiras brutais como a primeira ação da memória retirada da lama, portanto; retirada senão como o seu “lado negro da força”, coleção de gestos tão intensos que, em resposta a ela, lá pelo meio do curta, um dos jogadores, em comemoração a um gol, só poderá representar um alguém machucado, tornado inválido pelas imagens de introdução, imagens de guerra, enfim. Este é um filme em que a memória, resgatada sobretudo de uma genealogia do futebol inscrita na instabilidade das cores do videotape, haverá de ser filmada “em branco”. Porque o branco é a única cor possível para um equilíbrio nos depoimentos dos ex-jogadores, é a única cor compartilhada por CSA e CRB, o único ponto em comum, a cor, solitária no centro da bandeira do estado, que distancia o azul do vermelho, mantendo a rivalidade (para o bem e para o mal) longe do roxo ou das Dianas dúbias do Pastoril. Há pequenos momentos preciosos em que a memória é esse vulto “em branco” de onde emergem segredos (o roubo das toalhas do CSA por parte de seus jogadores, o que causa vergonha e certa revolta em um dos entrevistados), que aparecem como objeto estranho, literalmente na forma de “intrusos”. O mais interessante desses símbolos fraturados ou românticos, o lendário “Pedro Doido”, torcedor do CSA que por vezes ficava atrás do gol do CRB, talvez seja a figura máxima (porém breve no filme) dessa intersecção “em branco” – porque sair do Mutange para a Pajuçara é o mesmo que atravessar do azul para o vermelho através do branco da bandeira (e o branco é a presença de todas as cores!), ou da diversidade dos bairros da cidade. A sequência mais emblemática – entre algumas outras que pedem talvez o corte, sua ausência –, mítica até, é aquela que traz as imagens da inauguração do Estádio Rei Pelé, em 1970. Em p&b gasto, esfumaçado, quase morrendo, por sobre a imagem o tempo houve de preservar basicamente apenas três cores resistentes às forças das intempéries. Nós sabemos quais.

Ranieri Brandão

Brêda, de Álvaro Lins, Felipe Fonseca & Trinny Alarcon link para o texto, presente na edição #14, sobre cinema alagoano

Lixo, de Paulo Silver

Há dois polos possíveis de leitura para Lixo. Isto é, incide no filme uma espécie de campo e contracampo, mas sem nunca ambos os polos/definições constituírem as forças que lhes seriam possíveis caso houvesse uma maior compreensão das bases cinematográficas. O filme narra, como já dito, duas “paisagens”: a dos jovens de classe média que se acabam na diversão, na farra, e a do catador de lixo cuja presença é fantasmagórica – ele não é visto pelos outros, mas vê aqueles que negam sua presença. E talvez avistar aqueles que negam que ele é um ser presente indique um caminho de renegação que se materializa nos últimos instantes do filme: ao se deparar com um dos jovens de seu polo antagônico caído embriagado na porta de casa com uma lata de cerveja na mão, o catador repete o processo antiafetivo que lhe foi inserido por esses outros. Ele ignora o corpo do jovem esparramado, e apenas visualiza o motivo de sua sobrevivência: a lata de cerveja segurada pelo corpo estendido no chão.

Ricardo Lessa Filho

Os Ratos Não Descansavam, de Michel Rios link para o texto, presente na edição #14, sobre cinema alagoano

Missi, de Lays Lins Calisto

O plano que inaugura Missi nos revela, sobre o ombro de uma mulher cujos fios de cabelo fazem da imagem um espaço esvoaçante, a distância insondável do mar: em terra, a mulher que espera o amor regressar, esse amor argonáutico e, portanto, habitante de um outro universo contido em um mesmo mundo. A espera que é ausência (Missi de miss, em inglês?) é no corpo que ela se planta a esperar o retorno do Outro que, finalmente, o oceano cospe, e é o homem, pescador, que sustenta tantas vidas no gesto manual de arremessar a rede ao pisar em terra firme. Ele e ela não nos escondem seus rostos tombados e envelhecidos – não esqueçamos que no universo dos argonautas, assim como no universo dos astronautas, o tempo é outro, distinto –, e no movimento de trato do peixe, de respeito ao mar, a vida se restabelece: o fluxo do afeto de tantas décadas juntos sustenta e tranqüiliza tudo. Assim como no filme português É o Amor, de João Canijo, o pescador tem, de fato, como disse Dorival Caymmi “dois amor”, e Missi (re)confirma isso no momento em que descobrimos que o homem voltará a embarcar e sobreviverá através da distância. O grande tema que é inflado no filme: sobre os dois gestos (o da espera, dela, e o da aventura, dele) o que se mede é a grandeza igualitária do afeto, pois resistir à espera do amor que embarca na Nau é tão afetivamente grande quanto aquele que, por ter de sobreviver à vida, aventura-se no universo em si mesmo chamado oceano, e que por mais que se depare com as belezas desconhecidas do desconhecido, decide regressar ao seio da mulher amada. Porque os argonautas, assim como os Deuses, nascem e morrem sobre o peito de uma mulher.

Ricardo Lessa Filho

Hoje Não, de Wagner Sampaio link para o texto, presente na edição #14, sobre cinema alagoano

Menina, de Amanda Duarte e Maysa Reis link para o texto, presente na edição #14, sobre cinema alagoano


ISSN 2238-5290