Cargo 200 (2007, Aleksey Balabanov)

O elo da alteridade perdida

Cargo 200 se revela, em todo o seu constante terrorismo, um filme sobre o elo de um horror da memória soviética: a decadência de um regime, cicatriz de um mundo em que se despedaçando na impossibilidade de manter-se fiel às raízes criadoras, já não sustenta o peso dos equívocos políticos, sociais, econômicos, militares e, sobretudo, humanos que entrelaçaram o período pré e pós Perestroika. Há nesse filme de Balabanov a materialização putrefata da alteridade, isto é, o que emerge em Cargo 200 não é outra coisa senão o extermínio do Outro enquanto possibilidade de sobrevivência: a vida do Outro já nada significa, pulveriza-se, portanto, as possibilidades de uma certa recomposição da humanidade nos personagens tão cristãos, tão militares, tão metafísicos do filme.

A estruturação do ambiente de Cargo 200 é a mimese pós-apocalíptica irreversível à luz da história da União Soviética: as usinas cuspindo as fumaças com seus fragmentos gasosos da perversão nuclear em adjacências civis, o homem deste local, inalando essa química bárbara da História, parece constituir essa espécie de metamorfose anômala de sua gênese: a aberração genética aqui é, sobretudo, a espécie humana e a sua deficiência em sentir a vida. Na impossibilidade desse sentir o que resta é o gesto terrível do horror (quanto de coragem há dentro de um homem que executa um outro?), das contrações pavorosas de uma história “verídica” cujos odores do extermínio parecem ser os grandes símbolos de vida daqueles personagens.

Cargo 200 revive a tristeza da História – esse eterno retorno às raízes da Morte, em que o homem, dotado da insanidade de uma era, alegra-se em repetir os mesmos equívocos – através de uma montagem em que a imagem evapora sem deixar um rastro possível para acompanhá-la, realizando um movimento de coerência com a fisionomia e o coração dos personagens que a habitam, isto é, homens e mulheres emocionalmente invertebrados, em que a vida consiste em aceitar o horror que emana do tempo: dos religiosos ortodoxos da casa isolada em que o sentimento divino, de que a tese da crença em Deus parece limpar as perversões da vida, é um caminho onde, finalmente, eles conseguem instalar e oficializar a tenebrosidade do ato de matar, e é o contraponto do divino, representado por um professor ateu, que ao pedir ajuda aos moradores daquele lar concede às duras penas algum gesto de compreensão do Outro no filme: é esse homem, à luz de um não-Deus definido, desvinculado das raízes metafísicas do perdão, que parece enxergar o homem como possibilidade múltipla.

Como um ente e, sobretudo, um ser variável cuja ontologia enraíza-se e expande-se no movimento da dúvida – e talvez seja as suas contrações em relação ao absoluto que, de fato, o humaniza, o torna um alien quando equiparado aos personagens que o rodeiam, porque se o ato de matar em Cargo 200 é intrínseco aos personagens, é justamente pela composição do absoluto dentro deles, da dúvida que não ousa aparecer: “Eu posso fazer isso?”, perguntaria o homem do afeto, o titubeante da vida; e o seu negativo diz: “eu vou fazer isso. Porque eu sou, eu posso”, negativo, também, essa espécie de ser totalitário.

Cargo 200 é um filme sobre a inexistência do elo da alteridade, e se existe alguma junção que insiste em permanecer no filme, é o elo da barbárie, da gratuidade da vida que é eliminada como um dedilhar no gatilho, e que deixa aos olhos de que não resta suspiro algum de esperança sobre o homem – ou sobre todas as coisas desse mundo.

Ricardo Lessa Filho

Dezembro de 2013


ISSN 2238-5290