Irmão (1997, Aleksey Balabanov)

Não apenas no cinema, na literatura ou na música, há um desejo pelo outsider no ar: o sentimento de não pertencer aos lugares vivendo nesses lugares, combatendo-os ou deformando-os ao seu modo ou o ímpeto de se desviar dos padrões lidando olho-no-olho com a imposição destes mesmos padrões fundamentou uma poética própria em nosso cotidiano, nos movimentos sociais e nas variadas expressões artísticas com o qual temos contato diariamente. Essas figuras, ora representações mitificadas, ora retratos duros da exclusão, contornaram a opressão como heróis, anti-heróis ou anônimos numa jornada, povoando as margens ou assumindo o centro, suplantando as regras compartilhadas, mantendo a segurança na perdição, na luta e na falta de rumo de seus habitats selvagens. O outsider presume o conflito. Decerto, não me parece equivocada a comparação desse estatuto com o momento em que a criança entende a maneira como deve se comportar segundo as ordens dos pais, mas insiste fingindo não entender para continuar cometendo infrações sem ser punida; também não me parece equivocado o paralelo com a disfuncionalidade, ansiedade – o tal frio na barriga – e a impulsividade típicas de situações pelo qual passamos durante a adolescência. Um mixtape de insegurança e auto-afirmação. Ambas os casos, diluídos por um ascetismo assombrado pelo hedonismo, tendem a surgir silenciados de quando ou vez na vida adulta, afinal como lança Howard Becker, “ao invés de perguntar por que desviantes querem fazer coisas reprovadas, seria melhor que perguntássemos por que as pessoas convencionais não se deixam levar pelos impulsos desviantes que têm”.

Se ao longo dos anos, prostitutas, gays, drogados, travestis, órfãos, criminosos, nerds, losers, neuróticos e tantos outros, tornaram-se protagonistas na tela, da Nouvelle Vague, do cinema de Sganzerla ao fortalecimento simbólico do underground norte-americano, só para não se perder nos exemplos, foi porque a maioria de nós partilha, em uma ou vinte e duas parcelas, da proeminente sensibilidade provinda da condição de estar socialmente fora de algum parâmetro enquanto nosso corpo permanece em sociedade. O outsider não é um eremita que abandonou o convívio por escolha ou penitência, mas um sujeito que quanto mais tentou e se esforçou para se adequar aos meios, grupos e a determinados costumes mais percebeu a impossibilidade ou incongruência dessa ação. Há, desse modo, um afastamento brutal entre indivíduo e coletividade, onde o personagem encontra seu rumo tateando novas relações com o espaço urbano, muitas vezes por meio da deriva, da flanerie, do encontro e aproximação com similares, cuja distância ao centro, mesmo distâncias diferentes, semeia um terreno fértil para sonhar. O outsider é antes de tudo uma experiência da transgressão: uma forma criativa de se portar na cidade, um olhar prospectivo contra o clichê; um discurso rasgado, repartido, assoprado; uma expressão aclamada e acolhida como ~genuína~ pelos artistas. No regime estético se materializa como objeto de desejo e também como desejo, uma contestação que, como qualquer outra, segue o risco de ser invertida, domada, fetichizada.

Diante dessa introdução, chegamos em Irmão: o protagonista Danila, filho de um ladrão que terminou os dias atrás das grades e, portanto, um desses personagens tratados por seu meio como o que “vai terminar como o pai”, não é apresentado com grandes cerimônias. A câmera, aliás, esboça sem pressa sua personalidade por meio de pequenos acontecimentos, não esmiuça seu passado, revelando assim a complexa teia que envolve uma timidez extrema – o personagem passa muito tempo sozinho, fumando pelos cantos, em silêncio quando precisa falar com alguém. Soma-se a isso, não como contradição, um sentimento de justiça íntegro e uma agressividade descomunal. Danila reúne todas as características de um outsider cinematográfico cambaleante entre a culpa, a sensibilidade e a raiva: ele bate, espanca, mas fica preocupado se quebrou o braço de um segurança; ele mata vários num apartamento, mas quer ser amigo do sobrevivente; defende um cobrador no bonde, ridicularizado por dois homens mal-encarados, usando uma arma contra eles. Nesse sentido, o momento mais icônico acontece quando o jovem encontra numa sala de estar seus ídolos musicais tocando descontraídos, permanece encarando com um olhar tonto, bobo, para depois voltar ao outro andar, matar dois parceiros e lançar seus corpos numa vala escura do cemitério. Pede ao senhor que os enterre com dignidade. Tal ambivalência me faz lembrar de uma aula do início da faculdade em que a professora citando Wim Wenders, provavelmente algum filme que até hoje não assisti, relatou uma sequência em que um homem depois de enforcar uma velhinha ou um velhinho saía na rua e jogava uma moeda para o mendigo. Sem cinismo, com pureza e não há dúvida: o protagonista de Balabanov segue em plenos pulmões por esse caminho.

Enquanto o cineasta nos apresenta as nuances e fragilidades de Danila, mostra como alguns próximos enxergam de maneira fatalista apenas sua marginalidade, sua falta de futuro; a própria mãe o repulsa ao fazer do outro filho, morador de uma cidade distante, uma utopia pessoal. No entanto, a câmera revela que ele não passa de um matador de aluguel, antecipando o filme de gângster que Irmão se transforma quando Danila vai em sua busca para seguir o exemplo de sucesso na vida. Antes de se instalar em definitivo, o rapaz passa dois dias vagando por São Petersburgo, antiga Leningrado, um espaço urbano encravado de signos do desmoronamento e da reconstrução – a começar pelo nome ainda duplo da própria cidade – numa caminhada-panorama da Rússia pós-soviética. As lojas se multiplicam, a cultura do consumo desabrocha, o rapaz conhece uma canção por acaso, busca com frenesi os discos, vai num show, compra o VHS e assume para si mesmo sua postura de fã. Trata-se de um pequeno culto de iniciação ocidental, complementado por emblemas como a coca-cola em cima da mesa, uma caixa da Panasonic jogada ao fundo ou uma garota se deliciando com um sanduíche da MC Donalds perto do final. As referências visuais são amparadas pela trilha sonora, um rock misturado com música erudita, um pouco de batida eletrônica norte-americana, um garoto italiano cantando sobre a Jamaica. A Mãe-Rússia não é a mesma: enquanto a paisagem emana a transformação da nação, os personagens demonstram um mixed feelings, um pouco de nostalgia / lamento não direto, nunca se comenta sobre o passado na União Soviética, mas existe uma segurança perdida nesse passado que não chegou ao presente ao mesmo tempo em que todos gozam dos prazeres capitalistas, usam drogas diversas, aprendem aos poucos sobre o cosmopolitismo.

Ainda que esteja nesse dilema, Danila escolhe o cemitério ocupado por mendigos como seu lugar tranquilo, seu lugar entre amigos, pois assim como um deles, o Alemão, retorna para lá porque ali está sua pátria, ali descansam seus antepassados. Há uma tradição inscrita naquelas lápides. Irmão pode até não parecer o título mais adequado para a produção, afinal pouco vemos a relação entre os dois irmãos: o filme se sustenta muito mais na forma como Danila, rapaz ingênuo que deixou o exército dizendo só ter trabalhado em escritório, mas que empunha uma arma como um assassino profissional, é usado pelo irmão como seu substituto no trabalho de matador. Victor, aliás, encarna o arquétipo do amigo interesseiro que só aparece ou entra em contato quando deseja algum favor, amigo que costuma usar de uma falsa fraqueza como arma de convencimento, nunca demonstrando uma preocupação sincera pelo outro, variando o humor de acordo com a necessidade que a pessoa representa para ele. Todos vão da urgência ao descarte em um minuto. Victor é um capitalista e Balabanov usa do filme de gênero, da mística da máfia russa, para dar o corpo possível à identidade de um país preso ao impasse. Todas as missões dadas a Danila, seja para matar um checheno ou um ex-prisioneiro que foi solto, segue a linha da obrigatoriedade de aniquilação da concorrência comercial motivada por um desejo cego pelo dinheiro. Como se fosse uma forma russa, permeada de provérbios locais “se gostas do mel, também precisas gostar do fel”, de lidar com o novo sistema que se impõe. Só que enquanto outsider, o protagonista perpassa um caminho tripartido, de partilha mambembe de valores violentos, de juventude libertada pelo consumo e de busca desajeitada e voraz por afetos sólidos, um desencontro que não o leva a um desfecho, apenas lança-o, mais uma vez sozinho, numa estrada rumo a Moscou.

Rodrigo Almeida

Dezembro de 2013


ISSN 2238-5290