Guerra (2002, Aleksey Balabanov)

A segunda guerra da Chechênia ainda estava em uma fase de constantes insurgências quando Balabanov lançou Guerra, em 2002. Essa é uma informação importante, porque o filme escolhe claramente um lado em meio ao confronto através da forma como apresenta cada um dos opositores. Por mais que se possa tomar a construção narrativa de Guerra como uma estrutura de gênero (de certa forma próxima às longas jornadas do herói comuns no faroeste), não se pode esquecer do momento histórico em que o filme foi realizado, o que o coloca em uma posição bastante perigosa.

A história de Guerra é narrada por Ivan Ermakov, que está em um quarto escuro, fumando cigarros e tomando vinho enquanto conversa com um entrevistador desconhecido. Ele conta sobre o tempo em que serviu como soldado na Chechênia e relata quando acabou sendo tomado como refém por terroristas. O filme passa então a uma série de flashbacks, em que aos poucos a história contada por Ivan é reconstituída.

No campo de reféns, é clara a diferença entre os chechenos e os russos. Se de um lado aqueles que o filme apresenta como “terroristas” não hesitam em cortar fora a cabeça de seus reféns, em ameaçar estupros e em decepar dedos quase que apenas pelo prazer de gerar sofrimento, os russos se relacionam, mesmo no cárcere, com dignidade. Ivan, que fala um pouco de inglês, ajuda John, um ator que acabara preso na Geórgia junto com sua esposa, Margaret, enquanto faziam uma montagem de Hamlet. Ele além disso cuida do capitão russo Medvedev, que está gravemente ferido.

O principal problema do filme surge quando o chefe dos chechenos, Aslan Gugayev, decide pedir 2 milhões de libras pela libertação dos reféns. Nem o governo britânico e nem o governo russo, obviamente, aceitam pagar essa quantia, o que leva Aslan a decidir liberar John e Ivan para que eles buscassem o dinheiro e voltassem em um prazo de no máximo 2 meses. Caso não chegassem, Margaret seria estuprada por todos os homens do acampamento e depois decapitada.

Inicia-se então a trajetória de John em busca de levantar a quantia necessária para libertar sua esposa. Em meio ao processo, ele acaba sendo abordado por um produtor de TV, que o ajuda com parte do dinheiro em troca de receber material em vídeo do processo de resgate da mulher. Esse processo desenrola-se ao longo de grande parte do filme e envolve o reencontro de John e Ivan, que irão juntos voltar ao campo de reféns, combater todos os “terroristas” e recuperar as vítimas. Em troca de sua ajuda, Ivan cobra uma parte do dinheiro que John está levando para os terroristas e no final do filme acaba passando toda essa quantia para o capitão que, por estar gravemente ferido, tinha uma necessidade maior do que ele.

Esse gesto de certa forma dignifica Ivan, talvez o único personagem do lado russo que poderia ser considerado contraditório, já que ele mata chechenos sem titubear, inclusive mulheres. Ivan, no entanto, repete constantemente que aquele é um cenário de guerra e que é preciso matar, pois essa é a única forma de se permanecer vivo. Ao contrário portanto dos chechenos, que têm prazer em torturar seus reféns, os russos são apresentados como pessoas que matam apenas em legítima defesa. A construção desse quadro esquemático é um problema quando pensamos que esse filme foi feito em um momento de guerra. Há de certa forma um risco de que a trajetória vivida por Ivan e John acabe funcionando como espécie de propaganda dos interesses russos envolvidos no confronto.

Talvez esse risco seja levemente minimizado se considerarmos o filme a partir de uma reflexão sobre gênero, isso porque a trajetória do herói em um filme clássico de certa forma demanda que se estabeleça com clareza uma distinção entre protagonista e antagonista. Acredito, no entanto, a partir dessa perspectiva o filme carrega um sério problema: a sua resolução.

Após a invasão do campo de reféns por Ivan e John, chega-se ao clímax de Guerra. Os russos e os ingleses estão cercados por chechenos e navegam pelo rio até uma torre, mas são rapidamente encontrados. Não há mais o que fazer, os protagonistas parecem estar sem qualquer opção de fuga. Ivan retira então de sua mochila um telefone conectado a um satélite e de lá o capitão pede um reforço aéreo, que extermina os chechenos. Ora, esse telefone aparece do nada, dando à resolução uma resposta muito pouco elaborada. Trata-se, em outras palavras, de um Deus ex machina, o tipo de construção que mais deve ser evitado no cinema clássico, pois dilui o jogo de forças até então orquestrado de forma artificial e pouco crível.

Tanto pela perspectiva política quanto pela construção narrativa, Guerra me parece um filme com problemas, que embora interessante enquanto realização, traz consigo uma série de questionamentos éticos. Em um momento de guerra, é fundamental perceber o que está envolvido em ambos os lados, sob pena de se subordinar o cinema aos interesses de um ou outro governo.

Diego Hoefel

Dezembro de 2013


ISSN 2238-5290