Dia 5: Noite de Estreia (1977)

“Eles querem ser amados. Eles têm de ser amados. O mundo todo. Todos querem ser amados”. Iniciando sua projeção com essa sentença, Noite de Estreia codifica a não aceitação do envelhecimento não somente como uma forma de negação à passagem do tempo, mas sobretudo como uma aniquilação da imagem (real) enquanto entidade atemporal: aqui, finalmente, a eternidade do corpo é desmascarada à fórceps no próprio nascer de sua imagem-exuberância (ator, atriz), que desprovido do formol cinematográfico (já que o filme de cinema só pode existir na tela, portanto, impossível de transpor para a vida real ) não possui as armas necessárias para impedir a deterioração desse corpo. E é a imagem de Gena Rowlands que vem para emergir a falência do corpo frente o tempo: dotada de faces dilacerantes, Rowlands é a principal peça desse confronto imagético, porque no cinema, tanto o corpo quanto o tempo são antes de tudo e sobretudo imagens.

E nesse balé corpóreo em que nasce Noite de Estreia, a atuação da representação embola-se com a atuação do real: Myrtle (Rowlands) é uma atriz de sucesso que, durante os ensaios de uma nova peça que trata justamente sobre o envelhecer, não consegue seguir o roteiro ao pé da letra porque não aceita interpretar uma mulher que reconhece o avanço do tempo, da idade, e para Myrtle, envelhecer é perder seu status de estrela infindável. O realismo de Cassavetes torna-se um processo curioso e perspicaz aqui, porque o ficcional muito mais do que em qualquer outro filme seu funde-se ao real de uma forma tão violenta – a cena da personagem de Rowlands ensaiando a peça com o personagem de Cassavetes, aonde um tapa disferido rompe todo e qualquer laço fictício para cristalizar-se dentro do mundo real daqueles personagens – , que distingui-los torna-se um processo teatralizante: desvendar as minúcias dos atores encenando a peça ou encenando a si mesmos requer para além do conhecimento do ato de interpretar, certa ampliação do universo sensorial, pois é na contração de seus rostos que seus respectivos mundos (e angústias) são revelados.

Noite de Estreia é um filme que exerce uma atração hipnotizante além da compreensão; a câmera que quase imerge nos personagens, que parece travar uma batalha de repúdio e paixão, que os inocenta e os alivia ao mesmo tempo que os tortura e os lancina. O filme parece obrigar Myrtle a sair de seu mundo atuável e representativo para finalmente embarcar no mundo real aonde só é possível interpretar a si mesma, cujo embate a partir de então não será mais com as inúmeras personagens ficcionais, mas sim com o próprio reflexo e culpa – de ver uma jovem admiradora sendo morta em um atropelamento e tardiamente perceber que os paparicos de seus companheiros não são outra coisa senão uma forma de eufemizar a passagem do tempo.

Gena Rownlands lança o filme às estrelas, e ele parece ficar por lá eternamente, talvez porque esse lançamento seja essencialmente cinematográfico, e o cinema muito mais do que qualquer outra arte permite que essa imagem-exuberância seja glorificada pela intactabilidade da imagem-tempo; e eis, então, a forma mais eficaz de confrontar o tempo: ser cinema.

Ricardo Lessa Filho


ISSN 2238-5290