Morfina (2008, Aleksey Balabanov)

A simples menção de uma data no início de um filme, especialmente quando trata-se de uma clara referência histórica, localiza de imediato o espectador desatento num contexto político específico, além de, em geral, estimular uma expectativa do mesmo pelo momento em que o evento pelo qual se justifica essa informação – uma guerra, uma revolução, uma tragédia natural – tomará a tela transformando em completo a vida até então pacata dos personagem. No caso de Morfina, quando surge o 1917 enquanto um trem se aproxima da estação, logo imaginamos que em breve a Revolução Bolchevique vai abalar as estruturas do vilarejo afastado, onde o recém-formado Poliakov chega para assumir o posto de médico do local. A promessa, no entanto, não é necessariamente cumprida, a ascensão vermelha é apenas um vento distante, uma elipse que manda seus recados – seja através de um comentário superficial sobre a turbulência em São Petersburgo; seja por via de uma família de aristocratas queimados, atendidos depois de sua residência ser incendiada por populares.

Pouco antes, o patriarca num encontro com amigos explana a opinião de que trabalhadores, sem instrução, seriam incapazes de administrar uma instância complexa como o Estado e suas ramificações, argumentando não entender a busca pelo poder dos subalternos. O médico demonstrando toda sua distância do assunto afirma que conhece apenas duas classes, a dos doentes e a dos sadios. Balabanov, seguindo em sua adaptação o caminho traçado na ~semi-autobiografia~ de Mikhail Bulgakov, pune uma classe, um imaginário elitista, por meio da aproximação de seus corpos da decadência experimentada diariamente por outros segmentos sociais naquele mesmo posto de saúde. A mulher burguesa que abria as pernas para Poliakov examiná-la, fumando em uma piteira, determinada em usar sua postura para se diferenciar dos outros pacientes agonizantes, famintos, surge sem cabelos, literalmente torrada. No filme, a revolução não está num grupo de trabalhadores brandindo suas ferramentas, balançando bandeiras, berrando lemas comunistas, derrubando esculturas de czares, mas impregnada naquela pele derretida.

Dividida em blocos fundados na relação do médico com a sua profissão, primeira amputação, um parto difícil, a produção vai pouco a pouco sugerindo o vínculo do profissional com o vício crescente a partir de uma dose prescrita de morfina. Aliás, o vício aqui é visto como a imposição externa de um hábito no cotidiano, como um lampejo que se instaura definitivamente enquanto experiência. As doses vão aumentando, por um bom tempo não abalando a imagem do viciado em público, mas logo torna-se insustentável pela necessidade de sempre mais. Balabanov assumindo uma duração mais prolongadas em seus planos coloca no centro de suas imagens o interesse não pela medicina, mas por uma história da medicina, evidenciando pontos e mais pontos de uma reflexão, dessas que já devem ter passado pela cabeça de leigos e especialistas. Afinal, como ao longo dos séculos, os indivíduos combateram epidemias, mutilações de guerras e doenças, contornando adversidades em períodos em que ferramentas, tecnologias e conhecimentos práticos eram bem mais rústicos?

Na situação do filme, influências de outros campos, como o religioso, são deixadas de lado, apesar de inicialmente ter a impressão de que as enfermeiras eram freiras, focando, portanto, na própria formação do profissional de saúde há cerca de um século, indivíduo ainda não especializado, tampouco dono de um conhecimento amplo e firme; um aprendiz diante do que o cotidiano lhe apresenta. Assim, desenvolve-se todo um olhar para um parto de risco, um furo na garganta de uma criança para ela conseguir respirar, ações resolvidas pelo médico inexperiente, por vezes depois de correr apressado aos seus aposentos, para consultar seus livros de faculdade minutos antes de entrar numa operação. Há nesses instantes um misto de humor sórdido seguido da consternação dos corpos, uma insegurança pessoal em embate com a confiança coletiva de enfermeiros e pacientes. Tal qual no contemporâneo, um problema cada vez maior e bastante abafado, o médico fraqueja diante do fácil acesso aos medicamentos, de modo que começa a combinar alguns para combater efeitos colaterais de outros e vincula de maneira abissal atos comuns do cotidiano com a necessidade de uma injeção.

Em sua representação do usuário de morfina, Balabanov prefere observar os efeitos externos da droga no corpo, como quem está presente na mesma sala obscurecida, seguindo o caminho contrário de produções que procuram materializar em sons e imagens as sensações das viagens, sempre exageradas, psicodélicas e dramáticas, depois das injeções. A visualidade aqui implanta-se numa dimensão elíptica: vemos um corpo que está experimentando, vemos a contorção e a respiração, vemos os olhos a distância, imaginamos o prazer da música do início do século XX que inunda toda película, mas não participamos da experiência em si. Há um pouco de Bertolt Brecht nessa escolha de encenação, reforçada, sem dúvida, pelo chiaroscuro que conduz a fotografia de Morfina formatada por meio de luzes a gás em pontos estratégicos dos cômodos, que ao mesmo tempo que revelam parte do espaço, um antiquário de objetos por vezes anacrônicos, também nos convidam ao desejo de escuridão. O filme está enterrado nessa condição da tragédia: do homem capaz de salvar a todos menos a si mesmo.

Rodrigo Almeida

Dezembro de 2013


ISSN 2238-5290