O Foguista (2010, Aleksey Balabanov)

É estranho e ao mesmo cruel o tom de O Foguista, penúltimo filme de Balabanov, lançado em 2010. A história se passa nos anos 90, em uma Rússia aparentemente sem leis após o colapso da União Soviética. Nesse cenário, a máfia dita as regras e os acertos de contas se dão de forma banal, com trocas de tiros, facadas e matadores de aluguel filmados sem qualquer cerimônia e embalados ao som de versões pop de um flamenco repetido incessantemente.

Skryabin, um herói de guerra da antiga URSS, trabalha na carvoaria em que os mafiosos incineram os restos dos corpos assassinados. A crise o impede de receber seu salário, mas ainda assim ele não mantém qualquer relação corrupta com homens que usam das fogueiros da carvoaria para se livrar das pistas que os incriminam. Skryabin, assim como todos os demais personagens de O Foguista, é construído de forma voluntariamente rasa. Não é possível entender o que o move, qual o seu objetivo, nem mesmo por que ele não intervém no uso que a máfia faz da carvoaria. E isso de certa forma é reiterado nas conversas que ele tem com sua sobrinha, em especial quando frisa que há homens bons e ruins no mundo. O maniqueísmo do diálogo atravessa de certa forma todo o filme. E por mais que o protagonista se revolte ao descobrir sobre o assassinato de sua filha e decida se vingar (mudando então de postura), esse rompante o conduz ao suicídio. Esse moralismo transparece no diálogo em que Skryabin explica para sua sobrinha que havia se portado como um “homem mau”, pois havia matado dois homens naquele dia.

Em muitos momentos enquanto assistia ao filme, eu lembrava das fotografias e vídeos de Rafal Milach (http://rafalmilach.com/7-rooms/), em que a Rússia em crise é tratada também com estranhamento, mas sem estereótipos. As limusines, a música pop e os clubes noturnos fazem também parte do imaginário do artista, mas em sua obra os personagens parecem melhor construídos, de forma que é possível estabelecer relações não somente através das narrativas, mas também por movimentos sutis, olhares e pequenos gestos.

Mas apesar da superficialidade dos personagens, há em O Foguista alguns momentos bastante interessantes, em que justo essas sutilezas aparecem. É aí que o filme parece ganhar força, naquilo que foge de sua linha principal, em seus escapes.

Um desses momentos é a cena do suicídio de Skryabin, em que sua sobrinha volta à carvoaria após eles já terem se despedido e tira uma foto do homem com uma câmera Polaroid. A fotografia não chega a ficar nítida antes da saída da menina de cena e o que me parece instigante é justo que ela não se revele e que não tenha qualquer função narrativa. Essa imagem que nunca vemos é um registro de morte tomado em um espaço em que vestígios de tantas outras mortes já haviam sido destruídos. É de certa forma um retrato fúnebre, a presença de uma futura ausência.

Da mesma forma, a leitura do texto escrito por Skryabin ao longo de todo o filme também abre brechas. Talvez, como apontado por sua filha, o homem estivesse meramente reescrevendo o “Khailak”, um antigo conto do folclore Yakut. A sequencia de acontecimentos é no entanto insólita. Um russo invade a casa de um casal Yakut, prende o homem e estupra a mulher. Ele foge, o homem é libertado e decide bater em sua esposa, por ela não ter resistido o suficiente. A mulher, que no entanto havia fugido o quanto pôde, aceita e gosta das palmadas, pede apenas que elas não sejam fortes demais.

É essa a imagem que termina o filme, o que de certa forma é uma reviravolta à superficialidade até então apresentada. É justo no conto de Skryabin que encontramos um aprofundamento do personagem, o que opera uma espécie de curto circuito e faz com que pensemos retroativamente e tentemos revisitar esse personagem que, apesar de ser apresentado como um homem passivo, estava ao longo do filme imaginando uma história como essa.

Diego Hoefel

Dezembro de 2013


ISSN 2238-5290