Não Dói (2006, Aleksey Balabanov)

Na década de 1990, Balabanov teria dito em entrevista que não se sentia à vontade para filmar melodramas, pois teria dificuldade em escrever um roteiro que levasse o público às lágrimas. Receio natural. A crueldade está tão infiltrada em seu cinema que o gesto mais inocente muitas vezes mantém uma predisposição à violência e à sordidez. Se isso é mesmo verdade, também não se pode ignorar que alguns de seus filmes combinam diferentes matizes, inserindo o sensível e o cômico no interior de momentos impregnados pela severidade, como acontece em Irmão. É sobre esta flexibilidade que Não Dói se ancora. O filme se afasta de outros gêneros com os quais o diretor mantinha mais afinidade e adota o melodrama como gênese narrativa.

O usual descomedimento de Balabanov com a música se torna favorável ao excesso dramatúrgico, traço indelével do melodrama. A trilha de Não Dói flui hegemonicamente sobre a trama. Quase tudo depende dela, desde os arroubos sentimentais do casal de protagonistas até a adoção de um tom aventuresco por parte de outros personagens. Em outros momentos, é a música que permite uma descontração do drama, como acontece com o trauma de guerra de Oleg, que acaba esvaziado de sentido e diluído em uma atmosfera rarefeita e quase indiferente – talvez, a marca maior deste filme.

Apesar da subordinação que se cria em torno do eixo musical, as particularidades de Não Dói melhor se percebem na expressividade do décor. Nas cores e texturas deste elemento cênico se estampam as diferentes classes sociais. A neutralidade e a assepsia do branco adornam as paredes dos apartamentos dos abastados, enquanto o grupo de personagens principais, os designers, reside num imóvel quase em ruínas, escurecido pelo verde-musgo e pela pintura desbotada das paredes. Há uma inversão dos valores que usualmente se agregam a cada um dos espaços habitados, pois importa menos a estilização (e a obediência aos padrões de mercado), que as relações construídas dentro deles; o humano em detrimento do fetichismo espaço-visual dos endinheirados. Ao tempo em que isso se mantém em consonância com uma temática do melodrama encenado no século XVIII, referente ao altruísmo do plebeu contra a vilania dos aristocratas, não se pode encerrar Não Dói a tais cânones do gênero. Isso porque o grupo de protagonistas não é nem de miseráveis e nem de baluartes da virtuose – como geralmente se espera a partir da polaridade virtude x vício que o melodrama tradicional adota, refletindo a relação bem x mal.

Sem close-ups e uso do campo e contracampo à exaustão, é também sobre o cenário que resvalam os estados de ânimo e a relação entre Misha e Tata. Depois da tarde que passam juntos na casa dela, tons de amarelo e azul, que já apareciam na sacada do apartamento dos designers e no elevador, espalham-se por outras ambientações, numa contaminação que mergulha pequenas frestas ensolaradas em uma noite escura, inclemente. A busca da felicidade pela realização amorosa, tema melodramático em que o infortúnio paira ferinamente, está sujeita a forças maiores. O lugar que Tata dorme, atrás dos balaústres (ressonância de um plano similar de Dias Felizes), corrobora para a ausência de escolhas, a sujeição a uma ordem preestabelecida.

Balabanov, cujo cinema fez tão poucas concessões sobre a fronteira que separa a vida da morte, conduz o destino do casal a uma imagem final quase simbólica. Misha e Tata em frente a uma fogueira, permeados por um amarelo crepitante, finito. A narração off diz que ela não sobreviveu à doença. Mais que o sentimentalismo, esta cena compartilha uma fraqueza inerente ao filme, o receio em lidar com a intensidade e o energético, amenizando impactos e favorecendo a leveza. O diretor é incapaz de encarar frontalmente a morte, e apenas a sugere pela narração. Nem o corpo é mantido como testemunho. O cadáver desaparece. É dito que Tata foi cremada, como se um enterro soasse piegas ou demasiado doloroso no meio de tantos cuidados com a moderação – exceto com a música.

Retrocedendo no filme, uma ausência já era sentida. Faltam antagonistas, sejam bons, maus ou não maniqueístas. Os abastados dos apartamentos assépticos poderiam incorporar este papel, mas não representam qualquer ameaça, são até cômicos. Na ausência de uma força opositiva, renuncia-se ao confronto, à batalha e à guerra que antecedem o desfecho de um melodrama, e que poderiam dar peso e consistência a este filme. Por mais despótico que seja o destino, ele é esperado naturalmente, sem contestações, cabendo aos personagens serenidade em aceita-lo. Amargura e vigor, sobretudo em excesso, são reprimidos. É justamente por esta candura excessiva, no limiar do desdramatizado, que Não Dói flutua, passa sem deixar grandes marcas. A dor está no cerne dos filmes de Balabanov, tal qual maldição. Abandoná-la significa perder a solidez. Se não dói, não dura, fenece.

Edson Costa Jr.

Dezembro de 2013


ISSN 2238-5290