Trofim (1995, Aleksey Balabanov)

Para além da referência inicial ao filme dos irmãos Lumière, a relação entre cinema e trem se instaurou como a mais recuperada metáfora comparativa de dois meios em quase cento e vinte anos de história. Ambos são comumente trazidos como símbolos da Modernidade, de um período de transformação da experiência sensível, seja a partir dos devaneios em paisagens desconhecidas, da possibilidade de se deslocar no espaço-tempo, carregando consigo um peso distinto no que tange a ideia clássica de percepção cotidiana e de impressão histórica. Aliás, envolvido em inúmeras lendas exaustivamente contadas, a mais conhecida sendo a do público fugindo da sala com medo do comboio invadir o espaço, o pioneiro registro da chegada do trem numa estação foi por muito tempo tratado como apenas um fragmento documental, rudimentar, o oposto da ficção provinda de Meliès, até ser também preenchido por enigmas, imbricados na imagem e fora dela, típicos de uma fabulação.

Zizek em seu The Pervert’s Guide to Cinema analisa uma cena de Possuída (EUA, 1931), de Clarence Brown em que a personagem de Joan Crawford, uma trabalhadora que vive numa pequena cidade monótona, caminha entediada até os trilhos e observa com olhos melancólicos um trem que passa a sua frente. A cada janela, surge uma realidade distinta da dela e distinta entre si: dois cozinheiros preparando uma comida, um garçom montando uma mesa, uma camareira passando roupa, uma prostituta colocando suas meias, a sombra de um homem se barbeando, a dança de um casal. Não nos parece novidade essa presença da metalinguagem tão cara ao cinema, mas o filósofo aponta como o cotidiano da moça é invadido por uma experiência própria da fruição cinematográfica, como uma pessoa diante de um trem se transforma num piscar de olhos num espectador diante de uma tela. Isto é, como incide naquele instante uma projeção capaz de reforçar aproximações e distâncias afetivas entre olhares (entre o dela; o dos observados e o nosso).

O projeto Chegando de Trem foi realizado em 1995/1996 em comemoração ao centenário da sétima arte, de modo que soa similar à cena descrita anteriormente ao eleger como inspiração a famosa realização cinematográfica dos Lumière. São quatro segmentos dirigidos por cineastas russos, além de Balabanov, temos Vladimir Khotinenko, Aleksandr Khvan e Dmitry Meskhiev, cada um estabelecendo uma narrativa em diálogo com essa metáfora: montando, desmontando e remontando o trem e o cinema. No caso do tema de nosso dossiê, o segmento Trofim acompanha a fuga de um rapaz do interior, no início do século XX, depois de assassinar seu irmão por traição: ele tenta sem sucesso se suicidar enforcado, desce então numa cidade grande, fica curioso com um operador utilizando o cinematógrafo, coloca o rosto diante da câmera e cria, assim, de forma involuntária, o efeito do close naquela situação (ainda que o operador não perceba e expulse duas vezes o invasor da imagem).

A história se desenrola como um rápido retrato da vida de uma rapaz, movido por acasos e encontros, mas cujo percurso é delineado por elementos secundários que interferem na aparente simples jornada. A fotografia sepia cria um efeito de nostalgia até bastante clichê na história da representação contemporânea, só que até certo ponto esse clichê parece vir incutido de outro valor, como uma consciência do próprio fetiche da imagem, fetiche presente na homenagem em si, fetiche que nos move a todo momento enquanto espectadores. O rapaz até então residente de outro regime estético experimenta, durante sua caminhada até a hospedagem, para além da filmagem na estação, o hiperestímulo urbano, a velocidade das carroças e bondes, um tom de histórias de detetive (gênero marcante na literatura barata do período e que permeia a cinematografia de Balabanov), além da própria atenção reformulada, temas discutidos um a um no livro O Cinema ou Invenção da Vida Moderna, de Leo Charney e Vanessa Schwarz.

Acontece que com a morte / desaparecimento do protagonista, a textura da tela é modificada, viajamos cem anos até uma sala de edição em que montadores estão esperando o rolo de um filme recém-encontrado, intitulado ‘Chegada do Trem Russo’. Os três presentes assistem ao filme-descoberta, mas logo um dos responsáveis comenta que é necessário cortar os pedaços em que o anônimo coloca-se na frente da câmera, ordem acatada pela montadora, que elimina os frames na moviola (o que em nós pode ou não despertar outra sensação nostálgica). Os pedaços de película cortadas são lançadas ao lixo, num movimento que nos leva de volta aos primórdios do cinema enquanto sobem os créditos: fica o impasse sobre as escolhas do mostrar e do esconder, pois talvez o que exista de mais intenso nas produções dos Lumière, para além da história impressa num suporte, seja uma noção de fora de campo; de que devemos adentrar mais pelo que se esconde do que pelo que se exibe, até porque em inúmeros casos, o que se esconde é mais importante do que se exibe. O filme de Balabanov compreende em demasia essa dimensão.

Rodrigo Almeida

Dezembro de 2013


ISSN 2238-5290