Irmão 2 (2000, Aleksey Balabanov)

Irmandade antiafetiva

Irmão 2 está profundamente baseado no encanto de seu protagonista (que é o mesmo do filme original), Danila (Sergei Bodrov), e sua ida à cidade de Chicago, e é nisso que o filme tenta manter a sua sustentabilidade narrativa e ideária. O filme não possui nenhum vestígio de grandeza que possa equipará-lo a qualquer bom filme de mafiosos, senão na simplória esquematização de sua trama. Balabanov impõe a tentativa de sustentação (o filme não era, de fato, para existir, e se existiu foi por um golpe meramente comercial e lucrativo devido ao extraordinário box office de Irmão, 1997) em possibilidades esquemáticas que funcionam como apresentações aventurescas, que deixam por vezes soprar uma espécie de lealdade como força que move os bondosos e avareza que motiva os do mal. Uma lealdade muito soviética, decerto, de compadres bélicos em alguma guerra; e uma avareza só possível ao capitalismo extremo, de brincar e perverter tudo com o poder do dinheiro. De todas as formas, o filme não se posiciona em encontrar alguma coerência nisso: existirão americanos de coração solidário como o caminhoneiro que concede um dos raríssimos gestos de afeto no filme, e um ex-soldado russo que desaba de amor pela sociedade americana-monetária, ainda que essa paixão seja impedida de ser “vivenciada” porque ele está no cárcere.

O grande abismo do filme parece estar condicionado à violência demasiadamente sustentada em gratuitos movimentos e nos “irmãos” que vivem de uma forma por demais encantadora para serem credíveis. A violência é casual e, sobretudo, sem significância – nunca existe uma dúvida, um temor, um resquício de pavor sequer de que Danila, indubitavelmente, a respeito dos inúmeros tiroteios, sairá através de todas aqueles projéteis como se, de fato, nunca tivesse adentrado nos espaços que tantos morrem às cegas e de que terminará a noite com alguma garota à tira colo.

Irmão 2 parece ser ainda mais desencantado do que o seu antecessor, e o desencanto aqui não é do bulício herdado da melancolia ou da tristeza de finalmente descobrir uma vida impossível de ser compartilhada pelos gestos humanos (lembremos de O Samurai, de Jean-Pierre Melville ou Another Lonely Hitman, de Rokuro Mochizuki, filmes “violentos”, mas sobretudo, gestálticos e humanos – porque matar é um gesto que ultrapassa a própria vida do assassino). Se Irmão 2 não nos comove à luz da morte é porque assim como o seu protagonista, todo ele é destituído de qualquer verossimilhança possível a quem o assiste, isto é, a própria vida do olhar que ao se lançar no filme retorna sem resposta alguma para si mesma.

Ricardo Lessa Filho

Dezembro de 2013


ISSN 2238-5290