Educação Sentimental (2013, Júlio Bressane)

“Você perde a alacridade do corpo quando não quer mais nada.”
Gustave Flaubert

“Ansiar imagens é infernal. Você não sabe
qual imagem vai olhar sua decomposição na velhice.”
Hilda Hilst

Recentemente, publiquei este aforismo de Flaubert numa rede social. Precisei compartilhar o espanto de ver o meu dia salvo pela descoberta de uma palavra (alacridade, do latim alacritãs, para jovialidade, entusiasmo), reafirmando a esperança de que uma palavra ainda pode transformar os ânimos e alimentar minha insistente e inocente (?) mania de esperar do efêmero meio (a rede social), a possibilidade de uma memória, de um sentimento que dure além da tecla Delete. Boa resposta obtive dos que ‘curtiram’ e comentaram meu estado de espírito, ecoando semelhante alegria e encantamento pela letra. Senti-me um tanto menos sozinho na virtualidade pós-utópica em que me desdobrava, aprendendo a lição do mestre francês de que não é tarde para querer, se é este o ímpeto que ainda me justifica o corpo. E entendi que foi esta mesma a lição que recebera, poucos dias antes, durante o novo filme de Bressane: um tratado sobre o querer, sobre a manutenção do desejo e, sim, de alguma utopia para que o fôlego de vida seja mantido. Mesma lição, pois não foi somente em seu título que Bressane se aproximou de Flaubert. O que vemos brotar da afinidade eletiva nutrida pelos gênios é uma compreensão de mundo e de ser no mundo, atravessada pela educação básica dos sentimentos e do afeto, coisa em extinção para o nosso século, mas coisa sem tempo, pois acima dele e de nossa própria existência.

Educação Sentimental, um dos exercícios em arte mais belos e definitivos de 2013 — que não se pense somente em termos de cinema brasileiro, e mais, que não valha apenas para o cinema em si, mas para todo o pensamento estético e humano —, é destas recordações que guardamos em cadernos da infância, folheados por toda a vida, cheios de saudade, de verdade, de um tempo em que a formação era naturalmente provocada por cada gesto, cada movimento no espaço. Quando crianças, não determinamos as lembranças que ficarão, deixamos apenas a abertura para que elas nos sedimentem, nos façam quem somos. É esta a leveza que provo diante do novo (eternamente novo) Bressane. Em cada cena, diálogo, iluminação que percorre o ecrã e me invade o mais íntimo nível de aprendizado a que até hoje me submeto. Pois aprendo num plano de Bressane com a força que descobria o alfabeto. Desvelamento, revelação, consciência do que lá já estava disponível, à minha espera, e que me abraça ultrapassando a pele. Vontade de fazer com as letras, esta matéria-prima que importa para o autor em questão tanto quando as imagens e os sons, um novo mundo para habitar, para mover-me e encontrar a euforia de prosseguir atrás de novos movimentos. Diante do filme, a vontade é de poesia, de manutenção da beleza nesta física que não coube dentro da película. Pois das conclusões que nos ficam da sessão, uma das principais é de que esta matéria (a película) já não suporta ou condiciona qualquer chance de perpetuidade.

Como o latim novamente indica, é natural da pelliculae o diminutivo, a fragilidade, esta fina concretude que recobre os organismos, que resguarda a virgindade, que documenta todos os sentidos e sentimentos do mundo na experiência com o cinematográfico. O que Bressane provoca é uma superexposição destes limites, trazendo à luz sua própria contradição — de, para haver luz, necessitar a sombra. O que ele evoca, no sentido mais vertical do termo (angariar vozes outras e de outros tempos), é a urgência de uma racionalidade e técnica que subsistam primeiramente pela educação das emoções, do que as palavras guardam na tonalidade como são proferidas, do que só entendemos quando ouvimos com os olhos e as mãos, quando aprendemos com os cheiros. Eis um filme para ser visto com todos os sentidos, como raramente somos convocados, na atualidade. Trabalho consciente de seu deslocamento e que advoga esta justa necessidade de se transcender a expectativa histórica ou social para se manter enquanto conteúdo inédito. Pois não importa quanto se reveja ou revisite sua duração, esta é uma Educação que só se completa pelo aceitar da inocência, que nos torna castos para, enquadramento após enquadramento, desvirtuar-nos e irromper em nós uma moralidade descontínua, improvável para o contexto extra fílmico, mas sobre ele responsável, já que não é possível sair de uma lição sem novos problemas, sem a angústia de soluções não encontradas.

A professora e seu pupilo, entidades que nos orientam a experiência, representam aqui muito mais do que motes ou pretextos narrativos. Tratam-se de presenças fundantes para a sensibilidade — o obsceno ainda possível —, seres que concretizam o espaço circundante e que são perpassados pela temporalidade imanente das paredes, das pedras e vegetações que lhes servem de cenário. O que Bressane faz com este lugar do filme é santificá-lo, separá-lo do mundano na exata medida em que também o assume como um lugar do fim. Se há algo de edênico na conjugação espacial desta Educação, isto ocorre primeiramente pela desnaturalização a que são subjugados os corpos do casal. É pela maneira como entram em contato, entre si e com as coisas ao redor (os móveis, as portas, os degraus, as plantas), que estas vozes reorientam toda a condição dramática da relação que vivem. É entre pensamentos, aforismos e provérbios, que o amor ganha ninho, que a erótica irrompe não enquanto consumação física-fílmica, mas como dimensão de um pleno encontro de almas, irmanadas pelo desejo, pela simples querência de vida em estado bruto. Uma das considerações transmitidas pela tutora define o ‘projeto de ensino’ aqui almejado: A leitura feita somente por amor é uma coisa impensável dentro de uma sociedade movida por necessidades práticas.” Para Bressane, importa filmar este impensável, ficar no somente que se faz tudo, romper a praticidade dominante e que também contamina a linguagem e intenção da arte.

Os efeitos desta docência afetiva são catalisados pela maneira como ocupam o cerne da película que visitam. Desde o primeiro plano de Educação Sentimental, seu primeiro movimento, identificamos um potencial que avança anos-luz sobre qualquer referência contemporânea de mise en scène. O conteúdo do que abarca (um céu, um horizonte, um jovem numa piscina e uma voyeur) ecoa alguma proximidade com muito do que o cinema vive nos dias de hoje, e agora podemos nos ater um pouco a um sentido nacional. Se as formas que compõem esta primeira imagem lembram algo do merecido fenômeno recentemente encontrado por O Som Ao Redor, a singularidade com que elas se conjugam, na abismal e ontológica descida de câmera que une céus e terra, denota uma capacidade de síntese que ainda é por demais esboçada nos ‘novos’ filmes que hoje vemos. Bressane consegue em um plano o que Mendonça Filho arranha com todo um longa (que não se retire o mérito deste último, ele é dos poucos que ainda conseguem o arranhar). Somente com esta abertura, na maneira como ela cria um universo próprio, percebe-se a grandeza e viuvez de um homem como Bressane, artista sem par, mas à busca de herdeiros. O máximo de quem se pode aproximá-lo é de outros solitários errantes, como Straub ou Oliveira. O primeiro, na maneira como encara a natureza e a história, como preenche a sua imagem de sentidos e presenças que já nascem tumulares, ressuscitados unicamente pelo cuidado de uma panorâmica, pela alta voltagem de um close. É quase como se esperássemos esbarrar com o próprio Jean-Marie por entre as árvores que cercam o nosso casal. De Oliveira, sustenta-se até o pormenor com que este casal é enlaçado, na forma como eles se desencontram no olhar (a descontinuidade dos olhos de Josie Antello é tão próxima da que Leonor Silveira dedica na obra mais recente do mestre luso) para se aproximar no espírito. Pois nisto, a trindade de autores é una, quase divina em sua concepção: é preciso descer a terra, voltar ao pó de uma linguagem, para dela extrair o fôlego original.

Peço permissão para mais uma nota autobiográfica, consciente de que o excesso no tom de diário pode ser o meu maior risco (o de sempre), mas também o que mais me aproprie da escrita como prova impensável do amor, como necessidade não-prática. Minha sessão de Educação Sentimental foi uma aula particular. Sozinho com um amigo numa sala vazia (éramos apenas nós dois ocupando a sala curitibana do Cine Guarani naquele fim de tarde, apenas nós sendo ocupados e confirmando a experiência museológica de uma película), com Hilda Hilst na mochila. Esta mesma que me fez descobrir a alacridade de Flaubert, esta mesma que viveu, como Bressane, uma viuvez estética. Assim como na carreira da obscena senhora das letras — tudo de que aqui falamos está no fora de cena —, o cinema de Bressane é destes que transcende o público; que tanto pode fruir em esparsas sessões especiais, lotadas pelo frisson que o nome de um último grande ainda pode causar, como quando programadas com maior frequência e, daí, esvaziadas. Talvez seja nesta fenda que funcionem ainda melhor. Na particularidade dos poucos olhos. Pois somente do vazio o mundo pode se formar. Como Hilda, Bressane não está no cinema para um público que mal tem, mas para lidar com a sobrevivência de seus pesadelos pessoais, com o inferno das imagens, para imprimir o testamento que o representa e assim resistir contra a decomposição à espreita. Uma vontade digna, um querer mortal.

Fernando Mendonça

Dezembro de 2013


ISSN 2238-5290