Blue Jasmine (2013, Woody Allen)

É num deslocamento que somos introduzidos ao enredo de Blue Jasmine, filme em que Woody Allen, como já ressaltado por todos, segue na contramão do que norteou seus trabalhos nos últimos anos. Qualquer pessoa que tenha um mínimo contato com a recente fase do diretor-roteirista, reconhecerá de imediato a mudança no tom, no foco sobre os personagens e situações dramáticas, e claro, a diferença no tratamento de espaço e geografia que o abriga. Aqui já não cabem os cartões-postais como introdução do imaginário, pois o conceito de ilusão é trazido para outra superfície, numa viagem ironicamente encenada pela cena de abertura no avião, em que Jasmine (Cate Blanchett) retorna para a simples casa de sua irmã, após separar-se do marido. No mesmo voo, podemos situar o cinema geral de Woody, que retorna para a casa americana após uma série de projetos turísticos. Assim como a personagem, ele não tem por iniciativa abrir sua nova condição existencial por meio de imagens num álbum nostálgico. Confirma-se o bom retorno do artista, à medida que imagem e palavra se aliançam num pacto de extrema identificação, lançando-nos à (bio)grafia da protagonista através de sua verborrágica relação com uma desconhecida, durante a viagem. Palavras e mais palavras investidas para que ouçamos, já no término desta cena, o doloroso silêncio que a invade, no qual seremos aprofundados ao decorrer da sessão.

Mas para que não fiquemos restritos ao âmbito do verbo e da maneira como os personagens são construídos por aquilo que dizem e respondem — é comum e compreensível que se recaia, em análises do cinema de Woody, nas peculiaridades que o distinguem pelo texto, tamanho o esmero de sua escrita —, importa nos determos em outra cena, ainda introdutória, que também ajuda a definir o atual impacto do cineasta pelo seu refinamento de mise en scène. Pois é com um movimento de câmera que Woody reorganiza o espaço e a nova perspectiva imposta a Jasmine, mulher falida e sem rumo, prestes a enfrentar uma drástica transformação em sua realidade social. Referimo-nos ao momento em que ela adentra na casa de sua irmã (Sally Hawkins), onde ficará hospedada por todo o longa: a porta se abre, ela se adianta e olha ao redor um tanto quanto incrédula com a nova situação de vida, pois a casa é muito humilde e pequena para o seu antigo padrão. Na verdade, só conheceremos este padrão um pouco mais adiante, pelo recorrente uso de flashbacks que se sucederá, mas já, aqui, temos a matéria necessária para compreender a ruptura, a quebra de rotina dilacerante a ser vivida pela protagonista. Isto, porque acompanhamos o seu olhar com um elegante e desconcertante giro de câmera, em 180°, que abandona o espanto de seu corpo surpreso para vasculhar esta primeira apresentação do recinto. Movimento findo, paramos do outro lado da sala, na extrema oposição do olhar, e o brusco corte não retorna para o rosto de Jasmine. Eis o primeiro sinal de que, ainda que se trate de um filme sobre a volta de uma personagem e de seu autor, não se limitam os seus procedimentos formais a um mesmo ecoar desta revisitação. A partir daqui, até mesmo os contracampos estão sob ameaça, a dialética da ação/reação já não pode ser simplificada ou meramente amarrada aos seus referentes narrativos, se é a própria construção de seu meio que surge, de antemão, como interrompida, inconclusa.

É uma gentileza da câmera não retornar ao rosto de Jasmine. Uma primeira e falsa educação. Pois ainda que nos seja oculto este imediato plano de repulsa, a careta não filmada, completamos naturalmente a decupagem em nossas mentes. Daí serem todos os closes posteriores sobre a personagem — incontáveis e precisos, dando prova de que a gentileza não é mais o verdadeiro objetivo de Woody —, como que indesejados pela vítima das câmeras. Tudo que Jasmine quer é não ser notada neste novo mundo, não fazer amigos, não se apaixonar de novo, não ser mais o centro das atenções e dos holofotes; e é por esta necessidade mais do que justificada, pelo peso da culpa (sempre os ecos de Dostoievski) que herdou de seu antigo relacionamento, que a mise en scène de Woody vem se configurar como uma das mais cruéis e carrascas de toda a sua carreira. Por mais que Jasmine revire os olhos, nos dê as costas ou tente se cobrir com as mãos (muita atenção para a excepcional gestualidade de Blanchett, pois não é com lágrimas e palavras que ela compõe um de seus maiores desempenhos, mas na maneira como lida com cada articulação do corpo, fragilizada em cada movimento de existir), o martírio fílmico de acompanhá-la em suas dores e decepções é muito próximo daquele sintoma identificado por Bazin nos percursos de Dreyer ou Sturges: vem da consciência e do embate com as lentes, a possível sublimação do sofrimento humano.

Daí ser ainda mais dolorosa a materialização do passado em Blue Jasmine, na maneira como se confundem os tempos na falta de anunciação dos flashbacks. Nas primeiras vezes em que estes recursos são aqui utilizados, ficamos um tanto perdidos, demoramos a amarrar os nós, a unificar as dobras temporais, isto porque a própria Jasmine ainda não conseguiu se desvencilhar desta convicção de uma memória em estado presente, tornando-se uma pessoa mentalmente desequilibrada, que conversa com o passado no meio da rua e mergulha em suas crises de torpor enunciativo sem a certeza de qual o lugar está ocupando na linha cronológica de sua vida. Perdemo-nos em sua dor, no balanço que faz de sua existência, ao mesmo tempo em que sentimos uma espécie de balanço também feita por Woody com este seu pródigo retorno ao lar. A bem da verdade, ou melhor, da falsidade — pois se falamos de cinema, falamos do falso —, um retorno em partes, pois aí um autor que nunca traiu a sua linguagem, por mais que a tenha prostituído por alguma viabilidade financeira e europeia — pois se falamos de cinema, falamos sempre de algum nível de prostituição. Ainda que se insista, coisa de fãs, em querer-se um consenso de qual o melhor ou pior de seus últimos filmes (todos saem de suas sessões fazendo esta contabilidade, o que não deixa de ser uma aceitação do jogo e das trapaças propostas pelo próprio autor), o fato é que, seja no maior ou no menor tom, Woody prossegue inventariando aquilo que realmente o interessa: o melhor e o pior do humano. Balzaquiano, afinal, por isto sempre necessário.

Fernando Mendonça

Dezembro de 2013


ISSN 2238-5290