2013, A Ruína, O Recomeço

Toda escolha é política. Há, no ato de seleção e filtragem, uma inevitável operação de valores que define a ordem das coisas estabelecidas, que elege a prioridade, o digno do memorável e, com isto, denota o que vai fundo num perfil de pensamento. Como parte das tradições cinéfilas, o encerramento de um ano também acompanha este fechamento de um ciclo específico vivido pelo olhar. Das revistas e júris aos espectadores mais solitários, é costume lidar com esta ‘necessidade da permanência’ a partir de listas que concentrem as melhores experiências, num retrospecto que avalia não só a qualidade de produção em determinado contexto, mas o próprio amadurecimento do olhar que se presta à avaliação. Ao repensarmos as melhores coisas que vimos, também repensamos o que há bom de em nós — pois o que vemos, fica —, tudo o que nos atravessou e transformou, no correr do tempo recente. E se faço esta introdução, não é tanto para me conscientizar politicamente do que aqui venho justificar (que fique claro: estes meus rabiscos tratam do meu olhar, da minha seleção, ao invés de pretenderem representar qualquer política extensiva ao Filmologia como um todo — ainda que em alguns pontos a possam tocar), mas para, desde o início, esforçar-me por não ficar no lugar-comum da escolha política. Porque nem toda política é uma escolha.

Foi quando me deparei com a divulgação de uma destas listas de fim de ano, numa certa revista francesa, tão somente justificada pela provocação que se instalava em cada uma das escolhas fílmicas feitas para definir o ano de 2013 (especialmente as três primeiras, como de praxe), que eu comecei a me questionar sobre a validade de decisão destas escolhas. A lista em questão, ao favoritar trabalhos que não me diziam muito sobre o cinema de hoje, pois mais preocupada em delimitar ‘o olhar sobre o cinema de hoje’, sobre a maneira como o vemos e lidamos com ele, deixou-me mais pensativo do que o costume, para a elaboração de minha própria lista. E assim percorri o último mês do ano: almejando encontrar na escolha, a possibilidade de um afeto, fazendo da política um movimento sentimental, não tanto do que o ano representa para mim ou do que o tempo me diz, mas do que eu digo ao tempo, do que respondo ao ano dentro do que vi e em mim ficou.

No meu balanço cinematográfico de 2013, sou obrigado a, antes de tudo, recordar a insatisfação que me preencheu mais da metade deste período: em sete meses de cinema, a única sessão que me fez vibrar uma frase como “este é o filme do ano!”, aconteceu numa sala multiplex lotada, com a franquia mais uma vez revitalizada por J. J. Abrams em Star Trek: Into The Darkness. Por mais que tenha sido oportuno ver um raro blockbuster que justifica cada centavo de orçamento, não apenas pelas primazias técnicas, mas pela importância dada à conjugação de elementos ficcionais (tratamento de roteiro, de elenco, qualidade de enquadramento e consciência de montagem), não foi muito agradável assumir esta satisfação pessoal dentro da atmosfera em jogo, onde o cinema é das últimas coisas que importam no pacote de entretenimento que o mercado me vende. Mas faz parte do calendário e agora eu já me previno: primeiros semestres nem sempre são felizes, ocupados que estão com os prêmios mais badalados, as midiáticas escolhas dos melhores do ano (políticas, mais uma vez), e blá e blá. Bom é quando o estardalhaço passa e o cinema chega, quando o passatempo amortece para que ressurja o tempo. E foi em Agosto, aquele querido mês, que as coisas começaram a acontecer em mim.

Na passagem daqueles 31 dias, fui assaltado pelo encontro de dois filmes que, por mais de quatro meses, seriam a minha definição do cinema em 2013: The Canyons e La Fille de Nulle Part. Produções que se irmanaram em inúmeros aspectos: o baixíssimo orçamento com que lidaram Schrader e Brisseau, cineastas abandonados à própria sorte e à margem de qualquer sistema; a visão decadente e desesperançada de ambos os autores, no tratamento de seus personagens e na própria maneira como o cinema é refletido por estes; a conotação camerística e em ‘tom menor’ de sintetizarem suas carreiras pregressas com uma urgência quase testamentária; e, finalmente, a capacidade de concentrar numa duração de tempo, toda uma visão particular e subjetiva do estado humano da arte — onde estas conclusões terminam por afastá-los, obscurecendo a superfície da proximidade que guardam. A intensa força com que fui tomado por estas sessões também se igualou em sua condição: foram ambos os filmes obtidos por downloads e, caso eu não optasse por este recurso, findaria o ano sem a menor possibilidade de prová-los, já que nenhum deles foi programado no circuito em voga do nordeste brasileiro. Dado curioso: graças ao download, conferi The Canyons antes de seu ator principal, o pornô James Deen (foi um filme primeiramente distribuído pela internet, pois não conseguia espaço nas salas e festivais em que se inscrevia). Privilégio que descobri navegando pelo blog do ator e que também me fez repensar a nova dinâmica de distribuição, ou a maneira como ainda se encontram enferrujadas algumas perspectivas políticas e éticas desta acessibilidade, especialmente no Brasil. Mas para não fugir ao assunto e mesmo aproveitar a temática do download, gostaria de citar outro filme que redefiniu meu olhar sobre 2013, também baixado e visto em Agosto; não uma obra do ano corrente, mas de um século atrás, foi-me um milagre experimentar, em cópia restaurada e de alta definição, a versão de 1913 para O Estudante de Praga, de Stellan Rye & Paul Wegener.

Muito poderia dizer sobre esta emoção, de apreciar a obra (em meu quarto) na semana em que completava seu centenário de lançamento, mas prefiro ater-me ao espanto de descobrir neste secular filme alguns desdobramentos que já preparavam o terreno do cinema agora produzido e espelhado, em 2013. Como demarca o frame acima, é já num duelo de imagens e reflexos que o pensamento da luz e da sombra se concentrava. Ancorado no sinistro conto de Edgar Allan Poe, William Wilson, o longa alemão desdobra essa temática cara à estética fantástica: do homem e seu duplo, da fissura identitária que se desvela numa relação social e que, pelas possibilidades cinemáticas, já podia, naqueles idos do séc. XX, ser representada pela visão do impossível, de um homem que se confronta com sua própria imagem no espelho e a vê roubada, após uma negociação diabólica. É assombrosa a cena em que, por meio de um efeito ótico, vemos esta quebra na aliança com o espelho, quando a imagem refletida do ator ganha vida própria e sai do vidro, passando a persegui-lo no decorrer do filme e transformando o prévio enredo melodramático num verdadeiro espetáculo de horror que, apesar de mudo, bem poderia ser coroado com a declamação da frase-desfecho para o conto de Poe: “Em mim tu vivias e, na minha morte, vê por esta imagem, que é a tua própria imagem, quão completamente assassinaste a ti mesmo!”

Ora, é exatamente desta negociação que tratam, hoje, Paul Schrader e Jean-Claude Brisseau. The Canyons e La Fille redimensionam o pacto imagético a um nível semelhante, guardadas as proporções, com o filme de um século atrás. Ambos tratam de seres que só se enxergam através da morte, que só alcançam a visão plena das coisas e do mundo em que vivem ao tempo em que estas matérias se lhes revelam vencidas e à beira do apodrecimento, moral e formal. No caso do filme americano, a ruína e a decadência precisavam ser mais acentuadas, daí o nível caricatural e dramático de seus personagens, incompreendido por muitos, importar tanto naquilo que carregam dos atores que os encarnam. Há toda uma duplicação semântica nos papéis de Lindsay Lohan, nos atores pornôs que permeiam a intriga e na própria participação de Gus Van Sant como terapeuta; duplicação aprofundada pela abissal maneira como estes mesmos corpos são convertidos em imagens esvaziadas de suas identidades (algo já refletido em nossa seção de críticas). No universo dos Canyons, os amantes se oferecem pela internet, exibem seus atributos, filmam e divulgam suas transas, pois somente assim, por meio da falsa duplicação, conseguem sobreviver ao caráter ilusório que permeia todo seu cotidiano, aliás, de rotina cinematográfica, pois personagens envolvidos com o meio de produção dos filmes B. Caso em paralelo de La Fille, na composição figural de um diretor que se assume personagem, ou seja, que duplica sua existência primeira na tela, compondo a imagem de uma biografia avessa; pois ninguém se atreve a duvidar ser o tipo interpretado por Brisseau, uma idealização do próprio Brisseau. É o espelho traído, a armadilha contra o Eu, este descaminho escolhido pelo autor que não foge à própria morte, no amargo desfecho de sua obra. A morte do Brisseau-personagem, se nos valemos da conclusão em Allan Poe, também é a morte de todo um cinema ou de toda uma possibilidade para a imagem no mundo de 2013.

Por mais que a generosidade do velho professor para com a jovem resgatada de um ato violento seja uma tônica de esperança em La Fille de Nulle Part, o que predomina é a impossibilidade deste benevolente projeto. Não é com surpresa que a morte é recebida por Brisseau, seja nas fantasmagóricas aparições de seu apartamento, seja na tragédia final, encerrada por um beijo — e que se destaque o caráter sepulcral de ambos os beijos acima. O próprio conceito de trágico não caberia tão bem aqui, pois é como se o protagonista escolhesse e provocasse a interrupção de seus dias, como se ele decidisse pelo auto sacrifício, pela imolação de um corpo-imagem para subsistência de alguma juventude e beleza.

Pois bem, foi esta a definição de horizonte perdido que ansiei resolver nos filmes, com o prosseguimento deste último semestre. E que surpresa tive, já em Dezembro, ao me deparar com o último arroubo de Júlio Bressane, em sua Educação Sentimental. Foi como se, já no desfecho de 2013, só aí ele realmente começasse. Pois é num mundo sendo iniciado e emancipado, na postura pedagógica do autor para com suas imagens, inclusive na maneira como, ele também e mais uma vez, se torna imagem num interlúdio dos últimos minutos do longa, que eu reencontro a surpresa de uma esperança, de um olhar piedoso sobre a experiência do convívio humano. A imediata associação que me foi revelada dos casais que protagonizam esta Educação e La Fille, na proposta de aprendizado sensorial que norteia ambas as relações, logo me deixou a pensar na opacidade que também os distancia. É como se Bressane retomasse cada um dos pontos que para Brisseau fora impossível concluir, como se enfrentasse o esgotamento das forças brincando com esta fraqueza, com a fragilidade que expõe de todo um ideal estético, caduco para uma geração em andamento. Se em Brisseau a impotência advém da morte e da finitude dos seres, em Bressane esta mesma falta decorre de uma inversão; não é do envelhecimento que suas formas agonizam, mas da excessiva infância que ele encontra nos entes que filma. Se em La Fille a inocência é o elemento perdido, esquecido em meio à falta de fé, na Educação Sentimental trata-se do conteúdo fundante, pois se educa aquele que não sabe, que não foi viciado pela crença. Assim se restaura a esperança.

E aí reside a diferença na forma como Bressane se assume imagem. Ao vermos os bastidores da produção sendo incorporados ao nível diegético do filme, com a evidência de câmeras, fiações e equipamentos que, desde o início, preconizavam esta intrusão de realidade no universo ficcional, não lidamos com uma duplicação do cineasta-roteirista, pelo menos não como ocorrera em Brisseau e nos atores dos Canyons. Aqui, vemos um corpo que é pura presença e representação criadora de sentido, entidade que reorganiza as dimensões do espaço e do tempo sem se importar com o decalque que estes mesmos vetores incidem sobre a sua própria pele. É como se o corpo e a câmera de Bressane fossem a única duplicação ainda possível, como se a máquina fosse o exato reflexo do olho, ou vice-versa, e nesta confrontação, para mais uma vez evocarmos O Estudante de Praga — afinal, também ali um exercício de plena educação dos sentidos e das emoções —, fosse uma a assassina do outro, consequentemente, sua derradeira herança para este mundo físico. Ao invadir a textura de suas imagens, Bressane rompe o pacto com o espelho, culminando não apenas num ponto definitivo para sua carreira, que sempre lidou com estas diabruras metalinguísticas, mas determinando qual seria aquela possibilidade de imagem investigada para 2013: uma imagem autoconsciente de sua ruína, mas que transborda, em beleza e sentido, a potência de uma continuidade.

Quando saí desta Educação, me apercebi tomado por um grau de esperança que há tempos não vivia com um filme (algo de minha sessão já foi aqui registrado). Na verdade, era a exata oposição do que sentira em Schrader e Brisseau, que me foram positivos na maneira como venceram as vergonhosas limitações de filmagem, mas que juntos me abandonaram num estado irreversível e incomensurável de caos, de desordem do mundo e dos tempos. Em Bressane, também me invadiram estas dores, mas de alguma forma me foi reconfigurada a possibilidade de uma saída, de alguma resposta a continuar perseguindo, de um horizonte a desbravar. Foram meus olhos abertos para uma necessidade da não desistência, de ainda acreditar que a melhor imagem está por vir, que o melhor som e o melhor movimento estão por nascer, em alguma próxima sessão, qualquer próxima leitura do mundo. E daí ser incomodado por esta decisão de escolher em qual ordem elencar os três filmes que mais me importaram em 2013. Caso optasse pelo americano ou o francês, e qualquer um deles representaria bem o cinema de hoje, fundamentado estaria numa convicção política da perda, em sentido quase benjaminiamo, de suportar e superar a decadência técnica da imagem numa espécie de sublimação pessoal desta ontologia impossível. Ao decidir por Bressane, que tão ousada e solitariamente resgata um discurso sobre a aura, sobre a urgência de se trazer à memória não somente os rudimentos de uma linguagem material, mas a elementar condição de passagem enfrentada pelos corpos no tempo mundano, a ser continuamente reeducada e (re)iluminada, encontrei a potência de uma escolha que fosse não só pela política, mas também pelo sentimento, pela filosofia do existir. Em certo sentido, ao entender Educação Sentimental como a obra que finalmente define meu 2013, sou pautado por uma escolha quase religiosa do cinema que ainda me importa.

Não apenas por uma arte que transcenda o mercado e as conotações corrosivas de um sistema, pois como visto, guardo lugar numa mesma lista, ainda que em polos opostos, para Bressane e Abrams; o que ainda me esperança a cinefilia é esta qualidade de harmonizar contrários (a luz e a sombra, o som e o silêncio, a forma e a abstração), num contexto temporal já desarmônico e desafinado. Dar um voto de confiança à latente utopia afetiva de Educação Sentimental é como assumi-lo numa ficção científica, como irmaná-lo ao que também me tocou dos questionamentos humanistas em Star Trek. No recente episódio da franquia, minha memória trekker desde a infância educada foi reanimada pela dialética da lógica x emoção, costumeira entre humanos e vulcanos. O embate que alimenta a amizade entre Kirk e Spock, acima de qualquer dobra no espaço-tempo, é o que também faz deste universo imaginário uma das representações mais pertinentes para 2013. Se o melhor arsenal de imagens do ano pode ser colhido em propostas tão distintas de produção, aí mais um sinal de que o esgotamento não é a derradeira certeza. Longe estamos do fim. Depois de vivermos um ano (2012) em que todos os mundos ruíram e a maioria dos filmes testamentava uma auto implosão dos escombros materiais, nada mais natural do que agora sermos guardados por vislumbres de um recomeço, de um novo devir para o ser imagem. Com minha lista, encerro um gesto de saudação ao que ainda virá, a toda promessa que uma nova sessão traz, sabendo que não sou apenas eu ou o Filmologia quem escolhemos os filmes, se antes de tudo eles nos escolhem. Na certeza de que o próximo e os vindouros anos fruirão novas educações, deixo meus votos de um bom cinema a todos. E para ele, vida longa e próspera.

Fernando Mendonça

Dezembro de 2013


ISSN 2238-5290