Knights of Heaven (1989, Yevgeniy Yufit)

É sempre a escavação da existência nas trevas o que se realiza pela ficção que se ausculta o ser em obscura presença. E em Knights of Heaven, meu primeiro filme de Yevgeniy Yufit, se redescobre as conotações e as nódoas do morrer: é a presença de Tanathos que sobrevoa o filme: há a zumbificação da vida, personagens que se assumem numa desconhecida experiência que supostamente revolucionaria a humanidade, mas a grande experiência em si do filme se baseia na forma como o gesto de ceifar o orgânico se obtusa à imagem de Yufit: é o que ele chamou de Necrorealismo, a realidade da morte, seus planos são esses cadáveres imagéticos plantados, essa oscilação entre o respirar e o sufocar: vestígios de sombras, de contornos patológicos sobre o homem e a sua morte. É inferência heideggeriana que parece socorrer Yufit em seus devaneios mais perversos sobre o corpo putrefato: os mortais, disse Heidegger, são os homens. Porque eles podem morrer é que eles se chamam mortais. Morrer quer dizer ser capaz da morte enquanto morte. Só o homem morre. Relembro, também, Serge Daney quando este falava de um filme (talvez o maior) do compatriota de Yufit, Andrei Tarkovsky e o seu Stalker: Daney apontava que mesmo o filme sendo de cicatrizes metafísicas era, sobretudo, um filme físico, sobre o corpo, sobre a insolação das artérias humanas em direção ao enigma, ao infinito do tempo e da persistência de enxergar e sentir o invisível. Knights of Heaven, de algum modo, é contaminado por esse vestígio do desconhecido, por essa busca por compreender o que ao se aproximar, se extingue, e que ao se afastar, se aproxima. A morte enquanto realidade, no cinema, é também uma morte mitológica. Yufit, portanto, parece escavar uma certa ontologia da morte e do morrer.

Ricardo Lessa Filho

Abril de 2014


ISSN 2238-5290