Sedução e Vingança (1981, Abel Ferrara)

Se o trauma presume a dificuldade em simbolizar e dar forma à experiência do choque a partir da linguagem, a protagonista Thana, que logo no início do filme descobrimos ser muda, é duplamente envolta pelas trevas, o ocaso das palavras. Ao ser estuprada, ela contorna o indizível a partir da única linguagem que lhe restou, justamente aquela a que Béla Balázs atribui a renovação da experiência visual pelo cinema: a do corpo filmado. Sem a ressonância da voz, é o rosto de Thana que se despe na forma de solilóquio silencioso, tétrico, encarnação da alma e expressão do pathos. Seu gesto, impotente no primeiro estupro, intrépido no segundo, atua como potência em devir, grito que emana do corpo vituperado para anunciar que a imagem frágil e cavernosa de Thana se tornará uma superfície plana e diamantina, onde ricocheteiam os olhares e os desejos direcionados a ela. Esta metamorfose segue o princípio de uma reversão pela qual o corpo feminino, inicialmente confinado em um espaço constrito, sob o jugo de uma ameaça, investe em expansão. A natureza centrífuga do quadro fílmico só é conquistada, pois, à custa dos assassinatos em série. Já não importa se inocente ou culpado – isso é indiferente para o trauma –, eliminar o masculino se torna condição primordial para reestabelecer o espaço, o estar ali. Duas sequências seguem nesta direção. Na primeira, Thana caminha sozinha pelas ruas da cidade quando é cercada por vários homens. O plano mostra, numa transparência retilínea, a protagonista acuada no núcleo da imagem, enquanto as figuras masculinas perambulam ao seu redor, exibindo um ritual de domínio que constrange as extremidades da tela pelo arranjo centrípeto dos movimentos. Thana saca o revólver e atira no grupo, organizando, a partir disso, uma nova geometria do campo, que se expande tendo como epicentro a figura dela. Em outra sequência, ao receber um olhar malicioso do chefe, a protagonista lhe devolve uma expressão de libido que, como saberemos, não esconde um desejo, uma submissão ou um consentimento ao flerte, mas um jogo de poder/força fundado sobre a flexibilidade entre as posições de vítima e algoz, fragilidade e soberania. Assim, ao longo do filme, a presença de Thana se dilata ubiquamente até perder seu caráter de imagem passiva, dada a ver e a consumir pelo outro, para se tornar uma transcendência que desliza através do campo e do fora de campo agenciando a permanência ou efemeridade dos seres. Presenciamos a passagem da pulsão sexual à pulsão de morte. A ofensiva de Eros sendo repelida ou, melhor, submetida aos imperativos de Thanatos de tal forma que só se alcança o prazer pela destruição. O desejo caminha de mãos dadas com a crueldade. O ser, cindido por estas forças autodestrutivas, é deformado até se perder de vista em sua vertigem traumática.

Edson Costa Jr.

Abril de 2014


ISSN 2238-5290