The Swimmer (1968, Frank Perry)

A estrutura é a mesma de um road movie. Trocam-se as estradas por piscinas e permanecem as inquietações do subgênero: a dramaturgia dos espaços, o deslocamento reflexivo entre cenários e psicologias, a catarse intermediada pela transformação do mundo. Não fosse a tamanha preocupação em alimentar seu enredo, aprofundando um enigma facilmente adivinhável desde o início da jornada (mal responsável pelo título entre nós traduzido como Enigma de Uma Vida), Frank Perry poderia ser mais bem lembrado por um trabalho que ousa filiar-se aos estudos outrora iniciados em Jean Vigo, num curta como Taris (1931); ali, o claro delineamento de uma experiência que excede o interesse anatômico, ensaiando sobre o corpo de um nadador o espectro que é tão somente a concentração pura e mais extrema do movimento que rege a harmonia de um ser vivente. Ao contrário daquele atleta, Burt Lancaster se presta ao esboço de uma encenação física que aceita os riscos da descontinuidade, pois corpo e espírito, especialmente no cinema americano, não têm como se encontrar num ponto de equilíbrio pleno. Daí o contraste enfatizado junto a outros corpos, até mesmo infantis (como na brilhante cena em que ele atravessa uma piscina seca junto a um garoto que não sabe nadar), e a aceitação de óbvios problemas de narração (os erros de raccord, na inserção de closes do ator durante inúmeros diálogos do filme, não deixam de acentuar o caráter descontínuo e fraturado desta mesma quebra entre corpo e espírito). Mais do que os conflitos sofridos na memória do personagem, devem ser creditados à melancolia que preenche o desfecho em The Swimmer, o desgaste nos processos de ocupação desencadeados pelo corpo de Lancaster: a invasão dos espaços privados de certa burguesia, os sentimentos esvaziados deste grupo (em sorridentes vizinhos fakes que agrupam uma das galerias mais assustadoras que Hollywood já viu), o primitivismo de regiões naturais que também são posse da estranha humanidade então representada. Estar no mundo, afinal de contas, é uma questão de corpo, de como ele se move e perpetua. De como se tornar imagem. E o que Lancaster vive aqui é um apagamento de si próprio, uma desencarnação. Talvez não exista dor maior para o cinema.

Fernando Mendonça

Abril de 2014


ISSN 2238-5290