Journey to The West / Xi You (2014, Tsai Ming-Liang)

São 14 minutos de plano. O mais longo dentre os 14 planos que compõem Xi You. Plano que concentra o melhor e mais pertinente ponto de partida para que algum sentido comece a ser delineado dentro do audiovisual, neste 2014. Nele, vemos um monge descendo uma escadaria. A rigor, é somente isto. Mas é aí que Ming-Liang extrai um dos quadros mais ousados de toda a sua carreira. Rigorosamente, vemos no plano um extremo conflito de velocidades, travado entre o monge (Lee Kang-Sheng) e os demais pedestres, que estacam diante de sua lentidão; mas o que também vemos é o mover da luz, pois cada linha de degrau, cada sombreada reentrância deste pequeno abismo, é afundada por uma absoluta consciência de iluminação, como se a luz e o tempo fossem um mesmo estudo, um mesmo ente a se atravessar pelo corpo. Ou o que resta de sua silhueta, de seu fôlego a existir.

Encerrando uma espécie de trilogia, acompanhada pelos curtas Walker (2012) e Walking on Water (2013), em que seguimos o mesmo monge avançando no mundo ao ritmo de uma tartaruga — e nisto eclodindo como ponto de ebulição para um dos movimentos mais dinâmicos registrados na presente década —, Xi You se destaca dos projetos anteriores por ampliar o contraste entre o monge e seus próximos. Se antes era o nosso olhar que definia a variação dos elementos em cena, dosando as divergências e preenchendo o equilíbrio necessário ao bom andamento de cada sessão, agora Ming-Liang consegue que esta harmonia se construa no interior das margens da tela, por aqueles que as habitam, ainda mais aproveitadas e exploradas na maneira como o acaso dos transeuntes estabelece um diálogo na ocupação dos espaços. O exemplo da escadaria é notável: as pessoas se assustam, perguntam-se o que é aquilo, desviam, observam, escapam, como se aquela temporalidade não coubesse em seus mundos, não encaixasse em seu cotidiano. Mas duas pessoas chamam atenção: uma jovem, que retorna alguns degraus para fotografar o estranho, e uma menina, que decide parar um pouco na observação do monge. Nos 14 minutos, esta criança é a única que se dispõe a esperar para entender ou, pelo menos, sentir algo naquela experiência. Somente ela, em sua infância, ainda tem o tempo para o deslocamento, pois não foi roubada por qualquer agenda ou relógio (por mais que carregue uma mochila e possa estar atrasada no colégio). Aí um genuíno interesse pelo presente, não como o ignorado pelos outros passantes, também distinto daquele que a outra jovem tenta guardar em seu dispositivo, ao fotografá-lo.

Os sintomas etários aí demarcados, de esperar pra ver (na inocência) e guardar o visto (na juventude), são posteriormente completados em outra longa cena, a segunda maior do filme, quando o monge atravessa uma das ruas de Marselha sendo seguido e imitado, nos mesmos gestos e ritmo, por outra presença que acentua o grau reflexivo de Xi You: a do ator Denis Lavant. Neste plano, uma senhora bastante idosa atravessa por descuido na frente da câmera, recua um momento — tempo suficiente para que guardemos suas rugas, sua contorcida postura de alguém que já entendeu o tempo — e depois prossegue, desaparecendo de campo. Minutos depois, dentro do mesmo take, o perfil da mulher se infiltra pela borda direita da tela. Arrepiante aparição que nos faz entender ter ela ficado o tempo todo ali, vivendo o movimento repetido do monge, disponível à contemplação. Tal como a criança, ela não se importa em ficar parada, sem causa além do olhar. São dimensões de vida que estão acima das circunstâncias, mais próximas do meditar, e que por isso se imprimem distintamente nas imagens de Ming-Liang. Elas se permitem o tempo de tornar-se imagem.

E é neste desnudamento do processo, na maneira como ele desconstrói a inaudita presença de Denis Lavant, que o experimento do diretor se desdobra em novos sentidos apenas prenunciados pelos curtas dos últimos anos. Ming-Liang reposiciona o olhar sobre o mundo para igualmente reenquadrar o cinema, pois o rosto de Lavant nada mais é do que a paisagem completa de toda uma arte — ao menos neste certo ocidente, que o monge visita. Os contornos do rosto-paisagem, no visceral close do primeiro plano que se gasta em inesgotáveis minutos de pura transpiração, fazem rima com as montanhas de fundo em outro dos takes que Lavant aparece apenas para respirar. É toda uma história de linguagem que sobrevive aqui, suando, lacrimejando, buscando o ar da continuidade. Daí ser o encontro destes dois corpos, Sheng e Lavant, um esbarrão de memórias, em tempos já filmados e vistos à exaustão, agora perpetuados por uma espécie de slow motion que pede a pausa na maneira como são enxergados.

Na crise de movimentos que sempre configurou a trajetória de Ming-Liang, vemos agora o emergir de uma lentidão própria que parece se auto avaliar, a cada novo plano e foco de luz. Não por acaso a suspeita de que seja seu último trabalho com as câmeras, já que anunciou a aposentadoria desde Cães Errantes (2013). Ver 2014 ser aberto pelo fim escolhido de uma carreira tão singular talvez seja a mais digna possibilidade de se iniciar um ano, ou uma nova etapa na memória cinéfila contemporânea. Pois não há fim que não seja princípio, não há caos que prescinda da criação, e com Xi You nos lembramos de que é preciso parar pra ver, que os ritmos dependem de uma ocupação heterogênea dos espaços, e o movimento continua à disposição de nossos encontros. Só depende de nossa paciência em esperar pela vida, pelo cinema.

Fernando Mendonça

Abril de 2014


ISSN 2238-5290