A travessia da Zona

I. Orfeu (1950, de Jean Cocteau): Distante da razão e de outras redomas, Cocteau, o poeta, alcança neste filme o ponto cego entre Lumière e Méliès, a dobra em que o poder documental e o feérico das imagens conspiram harmoniosamente, depurados na beleza das formas e na concisão do estilo. Orfeu nos apresenta o lugar das travessias e da comunicação entre o que se acredita serem entes distintos e opostos. O personagem Heurtebise, stalker, mensageiro entre os mundos, nomeia o território destes encontros: a “Zona”, um espaço fora do tempo, formado pela lembrança dos homens e pelas ruínas de suas experiências, onde os vivos não estão vivos e os mortos não estão mortos. Para chegar até lá, os personagens atravessam uma linha claramente demarcada: na primeira vez, por uma estrada; nas demais, pela superfície aquosa ou vítrea de um espelho, lugar por excelência das passagens, das metamorfoses e da permeabilidade entre os mundos. O outro lado do espelho, a Zona, tem suas leis próprias, é um universo que desconhece a rigidez e as fronteiras, onde tudo se torna reversível, pois o real só existe como um sonho do imaginário. O risco dos que adentram este lugar é o de se perder da história e do passado, portanto, da concretude que forma a vida.

II. Um corpo que cai (1958, de Alfred Hitchcock): Este filme prismático de Hitchcock também nos apresenta a história de um Orfeu, o detetive Scottie. A dimensão especular se verifica menos em um objeto cênico específico que ao longo da estrutura fílmica, composta por uma série de dobras. A começar pela divisão em duas partes, a partir da morte de Madeleine, os motivos são repetidos/invertidos como se tudo estivesse diante de um espelho: os olhares de Scottie (ora para um abismo, ora para a amada, ora para a morte), a figura de Madeleine/Judy/Carlota, as frases, o beijo do casal, os planos, os espaços. A Zona de Um corpo que cai se encontra nestes espelhamentos conduzidos pelo desejo de Scottie de vencer o tempo natural e reviver o passado no presente, numa espécie de caminhada ao reverso – como fazem os personagens de Orfeu, de Cocteau. Em seus textos sobre o filme de Hitchcock, Chris Marker comentou a obsessão de Scottie em tentar reinventar a vida e negar a ditadura em que “o que foi, foi, e ninguém pode mudar”. Juízo e loucura, real e imaginário compõem a Zona por meio da qual o protagonista duplica o mundo acreditando na possibilidade de descer ao mundo dos mortos para buscar a mulher amada quando, na verdade, só pode vê-la morrer uma segunda vez.

III. Stalker (1979, de Andrei Tarkovski): Já não se trata de Orfeu, como nos filmes de Cocteau e de Hitchcock. Temos aqui um homem a quem chamam de stalker, espécie de Heurtebise que irá promover a travessia em direção à Zona, um território da ordem do sagrado, que guarda consigo algo de intraduzível ou não completamente manifesto ao homem comum. Como em Orfeu, ela também é um espaço em ruínas, cujas leis são sopradas pelo eco das montanhas, pelo vento sussurrando nas árvores e, ainda, pela correnteza das águas. A Zona partilha destes segredos que escapam à língua corrente dos homens. Ela não está ao alcance do entendimento, apenas da crença. Universo reversível e fluído – como a água que inunda todo o espaço fílmico –, a Zona é um espaço fora do tempo, alheio às vicissitudes da modernidade e reduto de uma energia arcaica e mitológica capaz de atrair para a realidade toda sorte de figuras que habita o imaginário e o coração dos homens. Foi em busca desta Zona, e não da que encontrou em Um corpo que cai, que Scottie se perdeu no mundo ilusório dos duplos.


IV. Sem Sol (1982, de Chris Marker): Orfeu, Um corpo que cai e Stalker são filmes essenciais, talvez de formação, para Chris Marker. A malha multiforme que reveste Sem Sol guarda muito destes três lucciole: as figuras de travessia e os espelhamentos estão presentes em todas as dimensões possíveis, sejam nos diferentes heterônimos utilizados pelo diretor (Sandor Krasna, Michel Krasna, Hayao Yamaneko), seja na passagem por mundos aparentemente opostos (Japão e África), seja pelo anacronismo dos tempos. Para além destes reflexos especulares, encontramos ainda outro tipo de Zona, que nos é apresentada como o mundo de grafites eletrônicos, imagens desfiguradas e deformadas por um sintetizador. É um espaço intermediário entre as Zonas espaço-transcendentais de Cocteau e Tarkovski e a psicológica de Hitchcock. Esta Zona de Marker se dá na própria superfície das imagens cinematográficas, extraindo delas todo tipo de apelo circunstancial – material, indicial e figurativo – para lançá-las na mesma dimensão presente em Orfeu e Stalker: o exterior do tempo. Similar a Um corpo que cai, a Zona é insuflada pelo sentimento e pela imaginação de um homem que não se mantém impassível à tirania do tempo natural. Este homem, Sandor Krasna, quer resgatar o algo do encanto do mundo que se perdeu com a racionalidade técnica e com o capitalismo. Ele quer recordar para além, mas a partir, da própria vida a fim de alcançar os tesouros perdidos nas ruínas da história e da memória.


V. Admirador de Chris Marker, Apichatpong Weerasethakul fez Tio boonmee que pode recordar suas vidas passadas (2010) com a própria matéria da Zona. Já não há a racionalidade que deu nome às coisas e isolou os seres em classes. Homem, animal e vegetal, os vivos e os mortos, fazem parte de um mesmo ciclo: o da horizontalidade entre tudo o que existiu e existe. Os espelhos já não são mais necessários, pois os estratos do tempo se sobrepõem e coabitam o mesmo espaço, o de um mundo que se abre para suas forças motrizes e originárias. Um mundo de travessia contínua da Zona, onde o homem moderno confronta o terror da história com a memória dos tempos.

Edson Costa Jr.


Maio de 2014


ISSN 2238-5290