A Síndrome de Stendhal (1996, Dario Argento)

A Síndrome de Stendhal, na sua fundação originária, em seu imitatio da História da Arte, reescreve a síntese mimética do Maneirismo: se os Antigos (clássicos) imitaram a Natureza, restou aos Modernos a imitação daquilo construído pelos Antigos. Dario Argento recapitula as sombras da renascença florentina, no líquido rubro do carmim proliferado em tantos momentos pela personagem de sua filha, Asia Argento. Encontramos a cartografia iniciática do Fantasma, a sua pulsão primeva: porque é a partir de dentro que Dario Argento reestabelece a Florença que Brian De Palma focalizou em Trágica Obsessão. De outro modo, o cineasta italiano ao reinvestir no espaço arquitetônico e artístico filmado por De Palma, “maneiriza”, então, a própria mitologia renascentista e o Maneirismo em si. De Fra Angélico a Botticelli e Dólci, de Michelangelo a Hitchcock, de Bava a Ruiz e De Palma, Argento alcança o milagre da imagem, concede à pan* da renascença a azáfama do movimento, reintegrando à luz do tempo e da arte (pois estar diante do tempo é estar diante da imagem) a locomoção outrora impossível: o Fantasma é irmão de sangue, o assassino estuprador não é somente aquele que entra e viola, mas aquilo que permanece da frase aristotélica: “realiza e completa o que naturalmente permanece incompleto”. Asia Argento, no mito de Stendhal e de sua síncope, traz para si uma outra patologia mítica, a de Estocolmo. A personagem de Asia tem na sua “esquizofrenia” (dois espíritos num único corpo, como disse Thoret) o que Norman Bates tem em Psicose: a Morte refletida no interior da Mimese inextrincável. E se o maneirismo é destinado a uma certa decepção (Daney), eis ela sintetizada em Psicose, Trágica Obsessão e A Síndrome de Stendhal em uma única cajadada: a de emular dentro de si o próprio Fantasma.

*uma imagem estática que deseja tornar-se cinematográfica nas palavras de Georges Didi-Huberman

Ricardo Lessa Filho

Janeiro de 2015


ISSN 2238-5290