A língua de Monteiro

Salve-se À flor do Mar como paroxismo da dicção em João César Monteiro, cineasta que abre-se para a poesia antes mesmo do filme: onde a palavra versa não como etapa intermediária, ou como própria imagem, mas como espírito que rege o que se vê, o que se ouve e o que se fala no momento exato do ato, ou seja, formando a si e a obra no instante da fabricação.

Não estranha-se que tal convulsão linguística acomode-se naquele que é o mais estranho dos seus filmes, essa flor sem antecedentes ou sucessores (e O Último Mergulho ainda está para ser visto, para talvez ainda me desmentir), beirando o momento mais pleno de seu cinema: o nascimento de Deus. João de Deus; a entrada para sua morada nesse lugar chamado Cinema.

Ouve-se aqui alguns diálogos, como o da senhora Amélia com o gato Silvestre no começo, com voz e cadência típicas de Monteiro (da mesma forma que ouvimos Jorge Silva Melo em Silvestre), que até então, em 1986, não “existia” do modo como iria logo, logo… E é tão urgente a necessidade de tal “voz”, que na figura do pequeno assaltante Stavroguine já vislumbramos (na primeira vez que ouvimos Monteiro em sua entonação única tão comum?) uma breve gag doente de seu teatro burlesco-celestial.

Não por acaso, dá-se ao lado de Manuela de Freitas, que está lá para nos provar que é a maior das atrizes do tipo monteiriano (a que não poderia ser alter por não ser outro ego e sim o “próprio eu”), enquanto a presença púbere de Teresa Villaverde trabalha em contravia. Sua disfunção, seu deslocamento, separa cerradamente o physique e o rôle: é um modelo em folha limpa à mercê da poética monteiriana, que ao não encarnar o texto, encarna o espírito do cineasta pela impessoalidade diante do discurso, em recito que independe do enunciador. Porém, seu físico fala eloquentemente por si, sua genuína identidade buscando a fuga pela juventude (“leva-me contigo para longe, para muito longe daqui”), das infelicidades de um mundo asfixiado por melancólico e sereno azul, semelhante em matiz ao do manto da Virgem na Aparição de Van Eyck.

(É curiosamente outro filme do mesmo ano, também filmado em Portugal, que vemos outras cores de Van Eyck: existe em O Rei das Rosas de Werner Schroeter um vermelho, encarnado de ferida viva, igual ao das roupas de sua Lucca Madonna e outras virgens. Acaso que emparelha dois filmes sob duas palhetas que não cessam sempre de relembrar aos seus personagens a memória de algo que não conseguem mais esquecer.)

Então é da jovem Teresa-Rosa (e antes dela, da Silvia-Silvestre) que somos capazes de antever a necessidade de João de Deus como mediador entre passado e presente, entre si e as moças de seu cinema, trazendo ao explícito esse pensamento demiúrgico que desde os princípios, desde os seus Sapatos, assombra seu projeto de poesia. O vocábulo único de Monteiro enfim demarcado à bel-prazer dentro de um mesmo momento, mesma conversa, de seus maravilhosos contraplanos-sem-planos, cambiável ao lírico e o satírico, o sidéreo e o funesto.

Nada mais é fortuito. Muito menos ainda o acaso.

Matheus Kerniski

Fevereiro de 2015


ISSN 2238-5290