No No Sleep / Wu Wu Mian (2015, Tsai Ming-Liang)

Há pouco mais de um ano, deparava-me com o pequeno grande filme Xi You (2014), outro dos delicados episódios que Ming-Liang vem dedicando de maneira já religiosa aos descaminhos de um monge andarilho, errante pelo mundo na contramão do tempo, rasgando o espaço em passos que exacerbam o conceito de lentidão. Fui tocado com tamanha intensidade pela experiência, que a guardei como a mais definitiva e a que melhor definiu o cinema de 2014, em mim, escrevendo algumas linhas aqui, no Filmologia. Terminei aquele texto sob a necessidade de uma paciência que pesou sobre as minhas letras, pois, sem exagero, tratou-se de um filme a redimensionar minha primeira necessidade de cinema e da escrita que daí decorre. Com toda a força do significado, foi o último texto que publiquei nesta revista, durante o ano restante; e com toda a força da ironia, foi o último texto publicado na seção de Críticas do Filmologia, até hoje.

Por mais que eu não possa responder pela equipe completa, nem estas palavras se pretendam uma carta de intenções do site, também não tenho como ignorar o curioso sintoma deste intervalo ao qual nos impusemos, de maneira involuntária e sincrônica. De alguma forma, é como se agora as palavras pedissem aquela mesma concentração do passo que avança sem pressa, como se todos nós precisássemos de uma nova consciência para atravessar os filmes e as palavras que eles, muitas vezes, nos pedem. Apesar de nem ao menos saber se todos os colegas do Filmologia estão acompanhando a maratona mística de Ming-Liang, sinto que o cineasta instaurou em mim um impulso que também alcança a todo o grupo, impulso que paira sobre uma época enfaticamente questionadora a respeito da posição crítica, sobre a perpetuidade que desejamos naquilo que vivemos com as imagens e sons fílmicos. Impulso que se define com ainda maior precisão a partir do mais novo experimento de Ming-Liang, o episódio Wu Wu Mian (2015), deslocamento significativo nas ações traçadas pelo mesmo monge dos últimos anos.

A ruptura do eixo é radical: se até aqui acompanhávamos um estudo sobre a ontologia do movimento, na maneira como cada gesto se apercebia dentro de um registro milimétrico de domínio do espaço-tempo, ou melhor, de pesquisa a conceitos que esboçam as possibilidades de habitação humana nas matérias mundanas, agora nos voltamos para a polaridade do que é essencialmente cinemático, ampliando a noção de movência (corpórea, psíquica, espiritual) rumo a um silenciamento da mobilidade, uma anestesia do que se pode enquadrar. Wu Wu Mian, após alguns primeiros planos que ainda evocam a trajetória pregressa do homem avançando e ocupando diversos níveis de travessia, rapidamente – termo de absoluta relatividade no cinema em questão – se revela um painel de busca pela quietude, pela imanência do que pode mover um corpo e seu ponto de vista. Se o filme de 2014 nos entregava o plano de duração mais assombrosa vivida pelo monge (14 minutos descendo uma escada) de vermelho (há cor mais adequada para o écran?), o segmento do ano corrente agora nos dedica o mais definitivo corte / jump cut que Ming-Liang já ousou junto ao seu obsessivo personagem.

Trata-se exatamente do ponto de virada que interpõe o Movimento x Quietude, unindo estas dimensões numa busca formal que também, muito claramente, progride dentro da tela. Corte que não deixa de reposicionar os fluxos de duração típicos do diretor numa nova investigação de montagem, de criar a sequência do que se vê e atravessa, colidindo duas cenas máximas: ao movimento em slow do monge no primeiro plano que simbolicamente já contrasta com o fundo do cenário percorrido, lá ocupado por um trem que troca seus passageiros para seguir viagem, cola-se a cena de um ponto fixo interno ao trem em movimento. Em outras palavras, deixamos de ver o monge se mover numa cena aparentemente ‘parada’, para entender o ponto de vista de alguém estático que contempla o mundo externo sob uma velocidade sobre-humana. A rigor, a cena dentro do trem é tão ‘imóvel’ quanto a que estava fora, pois em nenhuma delas a câmera é deslocada; o que se confronta nesta oposição de planos e, especialmente, pelo golpe que nos é dado através do corte que os une, é uma qualidade posterior ao movimento, pois ligada à sua impressão, ao que ele marca em nossos olhos.

Além de reinserir Ming-Liang numa tradição de cineastas que remonta aos Lumière (da qual ele participa desde seus primeiros dias com o cinema), a cena do trem, muito mais do que um raro espetáculo de luzes e cores (em todos os sentidos, um filme pós-2001), é a motivação que atualiza as necessidades do monge, funcionando como a esperada reviravolta de um thriller. Depois dela, já não ficaremos mais à procura do andarilho, pois ele então ultrapassa a condição de ponto vermelho no espaço para se configurar plenamente como corpo, como ente que também precisa parar, a despeito do ritmo anteriormente imposto. Lee Kang-Sheng, em si, um dos corpos mais emblemáticos do cinema contemporâneo, passa a ocupar a tela numa quietude letárgica, banhando-se, dormindo, deixando que reencontremos seus movimentos num reflexo do que fora Denis Lavant em Xi You, pois o que importa agora é a gota de suor que escorre, é o resfolegar da narina que não deixa de canalizar a vida, são os poros que fazem de toda a pele uma nova tela, de próprio fôlego. A entrada em cena de um novo e misterioso personagem (outro rapaz que se banha e aproxima quase sensualmente do monge, também dormindo numa cama ao lado) talvez nos peça mais uma paciência, no aguardo e almejo de algum futuro episódio, mas também já sinaliza a mesma confirmação prefigurada por Lavant, de que não estamos sós em nossos movimentos ou silêncios. O olhar do estranho, em relação ao corpo-imagem de Sheng, muito carrega do olhar crítico que o filme nos desperta, um olhar cúmplice, também despido, mergulhado em outra relação de inércia. E, com ele, eu desperto para este silêncio que já espera palavra, de uma voz que não pode se aposentar (nem de Ming-Liang, nem a nossa), pois prossegue e vive, reabrindo 2015, restaurando a urgência de avançar, nem que, para isso, sejamos como monges.

Fernando Mendonça

Junho de 2015


ISSN 2238-5290