Interior (2015, Ricardo Roqueto)


1. Tela rasgada pela luz, desde o primeiro quadro de Interior sentimos dois procedimentos que norteiam todo este inquietante curta de Ricardo Roqueto: trata-se de um filme de invasões, com camadas de interioridades devassadas pelo mistério que reside mesmo em ambientes claros, em paisagens ensolaradas, lugares cuja paz é invadida tão somente pelo simples, mas violador, gesto de se colocar uma câmera para enquadrar e, com isso, provocar a reordenação do caos, enquanto nos cria um mundo unicamente possível pelo quadro; trata-se de um filme de aparições, motivo sinalizado pelo incauto surgimento do título do curta, letras que fazem de sua transparência um anúncio de que nem tudo será simples, avisando nossos olhos de que é preciso atentar, concentrar-se na visibilidade, para acompanhar seus espaços futuros, invadidos por aparências enganosas e manipuladoras.

2. Janela rasgada por outras geometrias, a penetração de interiores prossegue tomando o lugar das paisagens rurais em troca de um novo dentro, agora em uma (só uma?) casa, com inúmeras portas e janelas a serviço de enquadramentos vertiginosos – e aqui há de se repetir os termos ligados ao mise en cadre, pois é disso que trata a sensibilidade de Roqueto, entender o que cabe dentro, literalmente, fazer pulsar o que encaixa entre as margens – abismais, com quadros dentro de quadros, espaços dentro de espaços, interiores sem fundo, mergulhados na potência do eco. Aqui, o adentramento se completa com significativas rimas, visuais e sonoras, que vão reposicionando aquilo que passou, ampliando as dimensões para concluir que estar dentro nem sempre é seguro.

3. Corpos rasgados por espíritos não vistos, a terceira e mais densa camada de interioridade vem se encontrar nos entes que habitam estas regiões; pessoas estranhas, estáticas (pela imobilidade, mas também pelo êxtase que não se manifesta visualmente em todas as formas, e que, mesmo assim, está lá), fantasmagorias silenciosas de um lugar em que, quanto mais se adentra, menos se sabe dele. Seres que completam a vertigem por não indicarem as suas razões legítimas e, indo além, que agregam à invasão e à aparição o estigma da possessão. Afinal, está mesmo dentro de si (somente ele?) o homem que geme e se debate sob a cama? Está consciente de sua pele a mulher-narciso que precisa tocar no espelho do roupeiro para entender que não passa de água? E quanto sobra no interior daquele que defeca lendo? Fica-lhe o corpo, ou só palavras?

Encerra-se a contagem de interiores no movimento nascente do último plano, único do filme em que a câmera se desloca, ao som de uma melodia confirmadora do sentido de cadência que todos os quadros anteriores tiveram. Na questionável liberdade que encontra para retornar à luz e ao fora (a saída pela janela, recorrente em curtas de Straub, por exemplo, aqui não tem o exato sentido de abertura, mas de ciclo que se completa e, por isso, fecha-se sobre si mesmo, se autodevora), não se dissipa o estranhamento instaurado pelo que se atravessou das atmosferas, dos cômodos, dos membros humanos que se foram. É um final que retorna ao seu início, e por isso, eternamente, que nasce. Pelo que não seria possível um encerramento sobre a escuridão, daí virem os créditos sobre uma tela branca, etérea, confirmadora de que a luz ainda tem o que rasgar em nós.

Fernando Mendonça

Janeiro de 2017


ISSN 2238-5290