Honey and Clover: para além das escolhas

Permito-me o uso da primeira pessoa e de linhas que, talvez, soem romantizadas em alguns momentos, pois não posso retirar de mim e do que sou os sentidos que Honey and Clover (Hachimistu no clover) provocaram, e um carinho agradecido pela série e seus personagens. A série narra a rotina de cinco estudantes universitários de uma Escola de Artes, onde nós, espectadores, acompanhamos suas realizações artísticas, buscas por emprego e por si mesmos, os amores e dissabores dos relacionamentos. O núcleo principal é composto por três garotos e duas garotas, que trazem consigo outros personagens essenciais ao desenrolar da história.

A série de anime é disposta em duas temporadas, a primeira de 2005, com 24 episódios e dois OVAs posteriores (formato de animação em que os episódios são lançados diretamente no mercado de vídeo, sem prévia exibição na televisão ou cinemas) e a segunda é de 2006, contando com 12 episódios. O mangá começou a ser produzido em 2000 e foi finalizado somente em 2006, no Japão. Aqui no Brasil, é lançado bimestralmente, num total de 10 volumes, desde 2009. Honey and Clover conta ainda com uma produção de 2006 em live action, que, em minha opinião, não apresenta tanta qualidade e tem uma fidelidade duvidosa em relação à série (a começar pelas características físicas dos personagens, que poderiam ter sido mais bem produzidas).

Como em NANA, os tipos de personalidades com que nos deparamos são bem trabalhados e muito próximos dos sentimentos e vivências humanas. O que se passa na história é possível e, inclusive, provável, com toques do imprevisível também presente em nosso cotidiano, sem se tornar clichê ou típico de animes do gênero shoujo (algumas séries acabam por ter sempre o mesmo foco, em se tratando desse gênero de anime, trazendo poucas novidades e seguindo uma linha esperada de acontecimentos). A obra, além de tudo, nos mostra diversas formas de amar, por vezes muito próprias e dolorosas. O que impera é o amor não correspondido, dito e tratado nem sempre com palavras. Aliás, as ações e reações dos personagens geralmente falam mais para eles e também para nós que os assistimos.

Assim como o amor não correspondido, outro foco da série é em relação às escolhas, sejam elas profissionais ou pessoais. Em se tratando de um núcleo jovem, esse tema talvez não pudesse estar de fora, já que é tão presente no que se espera que seja a vivência da juventude enquanto fase da vida. Temos o cheiro da juventude, a cor, o som, os sentidos, mesmo que através de costumes japoneses. O drama e a comicidade se misturam (em alguns momentos essa mistura nem sempre é proveitosa, como os chutes da personagem Yamada, dotada de uma força brutal para um corpo extremamente feminino, que por vezes irritam, mas a irritação é pouca em relação a tudo o que se tem dessa série).

Penso ser impossível esquecer certos momentos com que nos deparamos no transcorrer dos acontecimentos, recheados de profundidade e dor, atingindo tão facilmente o nosso sentir. Impossível esquecer, por exemplo, o pé de perilla (planta de folhas denteadas e cor roxo-escura, utilizada como tempero) plantado pela Yamada. Certo dia, ao se deparar com fortes ventos, a ponta do seu galho quebrou, tornado-se um peso para o resto da planta e possivelmente impedindo o surgimento de novos galhos, o que levaria à sua morte. A mãe da personagem sugeriu que ela cortasse fora esse pedaço de galho quebrado, mas ela não conseguiu. Isso me fez pensar que tem coisas nossas, da vida, que por mais que nos façam sofrer não conseguimos cortar, como a um galho retorcido, coisas que nos pesam, mas que fazem parte do que somos e do que precisamos carregar conosco, por mais que nos deixemos pender dolorosamente.

Como eu disse anteriormente, a série também trata das escolhas, presentes na vida de todos nós, em cada fase com que nos defrontamos. Talvez o tom e a utilização da primeira pessoa nesse texto se devam mais ao que essa característica do anime/mangá provocou em mim, especialmente quando assisti ao anime, em meados de 2008. O personagem Takemoto, indeciso quanto ao seu futuro e vendo sua incapacidade diante da capacidade dos outros, parte numa “jornada da autodescoberta”, onde sua bicicleta e ele seguiriam até onde o autoconhecimento lhe surgisse, mesmo se somente o encontrasse do outro lado do país (ou se somente encontrasse partes dele). Esse é mais um dos momentos inesquecíveis que citei, ou pelo menos foi para mim. A finalidade dele, ao partir, não era clara, talvez ele só quisesse saber até onde poderia ir sem precisar voltar (“Até onde eu posso ir sem voltar?” era um de seus maiores questionamentos). Provavelmente ele retornou sem essa resposta, mas com mais confiança nele mesmo e no que poderia realizar.

Nessa época, eu realizei uma jornada da autodescoberta, ou pelo menos tentei, mesmo não tendo partido numa bicicleta, sem rumo e com o dinheiro contado, tendo que trabalhar para me sustentar. Não precisei ir tão longe e provavelmente o Takemoto também não precisasse, mas isso tinha que ser dito a nós de uma forma que ficasse clara, que nos mostrasse as possibilidades de transpor limites, barreiras, mesmo que pessoais. Talvez por isso a série se aproxime tanto do ser humano, dos seus anseios, das suas experiências, pois, como eu disse, ela é realmente possível. Os personagens parecem querer nos dizer que certos pedaços de nós, por mais que provoquem dor e incomodem, sempre farão parte de nossa constituição. Que amaremos, apesar de tudo, mesmo que não tenha sentido para alguns outros, que faremos escolhas, que seguiremos por caminhos em que muita coisa terá que ser deixada para trás e muitas outras nos acompanharão. Que procuraremos por trevos de quatro folhas, como a Hagu, num campo enorme de folhagens, ao longo da vida; que criaremos estátuas de nós mesmos, como o Morita, ou que existe a possibilidade de gerarmos dor em outras pessoas, mesmo que contra a nossa vontade, como prova o Mayama.

“É mais doloroso chorar quando você não pode fazer algo que quer, ou quando não sabe o que quer fazer?”

Ana Clara Martins

Agosto de 2010


ISSN 2238-5290