A partir de Ervas Daninhas

AS BRASAS QUE SOBEM QUAL PLUMAS

Ah, como temos de nos lacerar perante alguns filmes. Quantos filmes que antes de vistos, seja pelo outrora de seu provedor, ou pela volúpia da critica, muito se consagra já naquele pensamento de que não o compreender sinalizará um recalque na postura do ver, arqueada por uma anemia intelectiva. Alguns filmes que, perto de findarem-se, apenas vitrificam, com estrabismo, a antemão de antegozos; outros que, enquanto se iniciam, já se afiguram tão nirvanicamente junto à plasticidade da pandora ─ que nem nos lembramos que guardam o pandemônio . Ao termino de tais filmes, arrefecemo-nos entre as tais perquirições semi-retóricas: “Bom! Como o acharam?”; “Porque assim o qualificaram?”. Depois, sem soluções de fecundidade, fecundamo-nos entre os tais impasses: “como então qualificá-lo?”; donde começar a comentá-lo?”“. Desentranhando-nos disto, também sem soluções de satisfação, satisfazemo-nos enfim sob as idéias que aliviam toda a delicadeza de nossa posição, mais do que decifram o complexo da obra. (oxalá não fosse assim!)

A TERRA ENTRE RAÍZES

A partir daí, dão-se os momentos de canônica mediocridade; os demais deploráveis momentos. É quando a fruição critica da arte desestabiliza até as expectativas de concepção, para tornar-se um deposito mesquinhas conflituosas, onde se ambiciona resguardar, se não a métrica da perspicácia, ao menos a “certidão senhorial de anti-iconoclastia”.” Mas até agora é esta sua última labuta cinematográfica” dizemo-nos, ao pensar no realizador. “ele deve estar agora nalgum refluxo de engendramento artístico”; “deve ser bem isto”. Pronto, e temos então uma primária solução. “Conseguimo-la; a se esquivar estamos!”. Ah, mas talvez isto… não, não. .. este fôlego talvez possa ruir, cair no desmantelo, pois, embora seja verossímil, ele obedece em demasia ao lote de noções genéricas. Nem sempre o joalheiro quando envelhece, envilece a sua predisposição de carpinteiro. Não, esta solução insculpiria menos que neutralidade crítica; ainda mais, porque não tenho como bem lhe pôr em companhia dalgum argumento despossuído dos bons lugares-comuns. E isto, deveras, eu não tenho. ─ Ah, prosperar apenas nas dívidas com a argúcia, é coisa para quem adula a si mesmo; tanto que pobremente se preocupa com outros que lhe podem adular de forma análoga a quem conhece instintivamente o desmazelo da sabedoria, porém se abstém do recurso para criticá-la, porque reconhece na sua falta também signos maiores que aqueles onde uma repreensão atinge com altivez e firmeza. (oxalá não fosse assim!)

O ÉDEM (COM OS ANIMAIS)

Oxalá… Sim… decerto isto, e…. afinal… é certo, é! Aí está: o mel da fenda, a cortesia da evasão: é então invocar a estampa da incompatibilidade. Os gostos, afinal, são particularmente intransigentes, incorrigíveis ─ ao menos, sem um bom transcorrer de tempo. Pronto: é denunciar-se circunstancialmente dentro da inaptidão para pontilhar afinidades diante do desempenho narrativo, apontando também algumas frouxidões criativas (que, de fato, sempre há), para que se deixe perceber, para os menos sagazes, apenas um acanhamento da sensibilidade, em vez duma desertificação crônica dela, pois tal fato pode expor, para os mais sagazes, um todo de inabilidade critica. “É isto, portanto. E assim… ah… enfim é isto“. “podemos, depois de tudo, ver se aniquilarem algumas flores da nossa argúcia; é, no entanto, nosso jardim dos orgulhos que importa” deste modo Balzac escreveria (caso houvesse escrito ainda mais), posto que era tão perseguidor dessas analogias florais.

Bruno Rafael

Agosto de 2010


ISSN 2238-5290